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Em entrevista exclusiva criador do Orkut fala sobre o presente e o futuro da tecnologia

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E cometemos a ousadia de não perguntar sobre nada sobre a rede social Orkut. Explico a seguir.

Bom eu estou quase para completar 42 anos e então posso dizer que a rede social Orkut fez muito parte da minha vida como talvez tenha feito da vida de você que me lê agora. Eu fui o feliz participantes de comunidades pra lá de duvidosa como “eu tenho medo do mesmo”, e também fiz muitas amizades e boas interações por lá.

Mas já foi, é passado e pensei que talvez pai da criança, o Orkut Buyukkokten, tivesse mais para falar sobre todas as mudanças que vieram depois do término da rede que deu origem à série. E foi sobre esses assuntos que eu resolvi conversar com ele.

No papo a seguir você verá tudo que ele pensa sobre bolhas sociais, o impacto da Inteligência Artificial na vida das pessoas e até sobre Black Mirror. E já posso adiantar o Orkut (a pessoa) é super otimista e sempre traz um viés bom e lúcido de como as redes sociais e a tecnologia estão impactando a sociedade.

Hoje ele é o empreendedor por trás da Hello –  uma rede social baseada em personas – e que foi lançada primeiro no Brasil. E que já tem números que surpreendem.

Inicialmente a entrevista que seria por e-mail acabou rolando por skype. Em cerca de meia hora falamos sobre as diversas faces da tecnologia e descobrimos uma série favorita em comum e também um episódio favorito comum de Black Mirror.

A conversa toda foi gravada e a seguir o leitor verá uma livre versão minha do que falamos em inglês. Tentei ao máximo captar as ideias dele e quando necessário deixei pequenas notas entre parenteses para ajudar a explicar um pouco mais as ideias do visionário empreendedor.

Pegue sua bebida favorita,coloque sua playlist de leitura e aproveite como eu esse papo com um cara que eu já curtia por ter criado o Orkut (a rede)  e agora por conhecer as ideias por trás do criador dela.

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As redes sociais estão criando bolhas sociais: se eu gosto da cor preta ela só me mostra essa cor e pessoas que também gostam dessa cor. Como o senhor vê esse fenômeno?

Tudo depende dos tipos de bolhas sociais. Algumas bolhas podem ser benéficas, por exemplo, eu sempre tive minhas próprias bolhas sociais. Eu tenho amigos que, se vai inaugurar um restaurante que gostamos, podemos marcar de ir conhecer juntos.

Eu tenho amigos que amam os super-heróis da Marvel e então quando Pantera Negra estrear (essa entrevista foi feita cerca de dez dias antes da estreia do filme, veja o que eu achei de Pantera Negra aqui) nós vamos marcar de ir assistir juntos. Se a bolha social tem a ver com uma paixão ou interesse, ela é benéfica, mas também é realmente importante não ir de frente com as pessoas e dar total autonomia para que cada um possa controlar o que quer ter contato ou não.

E qual é o lado ruim disso? Porque se eu só vejo coisas que eu gosto eu não tenho contato com nada diferente. Como isso pode impactar de forma negativa a sociedade?

Essa é uma questão muito válida. Hoje os serviços de mídias sociais otimizam o uso de machine learnings (machine learning, explicada de forma bem simples, é o sistema de aprendizagem que roda por trás dos programas de inteligência artificial)  para escolher qual o melhor conteúdo para exibir para você. Mas eles também tentam maximizar uma melhor entrega para os anunciantes. Então a soma disso acaba tirando a qualidade dos feeds e os deixando mais impessoais. Então aquilo que você compartilha acaba também tendo um ar mais impessoal e isso tem um enorme impacto na sociedade como um todo e se você olhar para esse fenômeno verá que as pessoas acabam se fechando nas comunicações em redes sociais, o que não era assim antes. Cada vez mais estão sendo criando ilhas sociais e isso tem tido o impacto negativo que nós estamos vendo.

Falando sobre a grande mídia aqui no Brasil nós temos um modelo não muito democrático onde grandes famílias poderosas detém a propriedade de grandes veículos de comunicação. E esses veículos tem tido muitos problemas para lidar com as redes sociais (quando essa entrevista foi feita a Folha de São Paulo não tinha ainda anunciado sua saída do Facebook) e também problemas para achar uma forma de monetizar o conteúdo. Como o senhor vê essa discussão?

Nós estamos no meio de uma revolução que está remodelando tudo o que você faz: os nossos passatempos, jogos e hobbys. E também estamos mudando o nosso consumo de mídia. Agora como lemos essas notícias de forma instantânea, ao invés de parar para ler uma revista, nós recebemos as notícias de forma instantânea. E como todos estão online isso gera uma concorrência muito grande – o que faz com que o conteúdo muitas vezes seja prejudicado com notícias não muito confiáveis. E então você acaba ganhando mais com  notícias que não são confiáveis, que nem sempre são verificadas como deveriam.

Mas há jornais que tem feito um trabalho diferente com investimentos em especialistas para pesquisar e publicar textos com qualidade, porém que não terão tanta visibilidade quanto um artigo de uma fonte menos confiável. E aí temos um grande problema.

E nós tivemos uma tremenda mudança também nos sites que geram tráfego para as empresas de notícias. Antigamente o Google seria uma grande fonte de tráfego, mas hoje o Facebook também é um gerador importante de tráfego. Já se você olhar o Twitter, é uma rede social mais amigável. Eu acho importante que a grande mídia adote ferramentas para chegar mais nas comunidades locais – ter mais proximidade com as pessoas – e também apps próprios que façam com que as pessoas fiquem próximas desses veículos. Outra coisa importante é que as gerações que estão vindo irão consumir a maior parte do conteúdo em dispositivos digitais e não através de concessões públicas.

Ok, e então nós caímos no conceito das fakenews. É um tema que me preocupa bastante porque quem pode dizer o que é uma notícia falsa ou não? Se eu delego isso ao Estado, um veículo ou um blogueiro que fala mal do Trump pode ser considerado pelo governo norte-americano falso. Porém notícias falsas podem ser perigosas. Os robôs e algoritmos podem nos ajudar com isso?

Sim, sem dúvidas eles podem, mas eu acho que a solução ideal é um misto de inteligência artificial com análise humana para exibir o conteúdo certo para cada pessoa. E uma grande parte dessa discussão precisa ser destinada a reputação da origem da notícia, que normalmente vem pela comunidade de leitores e não dos algoritmos. Se nós conseguimos identificar se aquela fonte de notícias tem uma alta reputação num determinado assunto podemos deduzir então que seja uma fonte mais confiável.

Na rede social Hello nós somos capazes de identificar uma reputação favorável baseado nos temas em que as pessoas são especialistas ou apaixonadas e dar mais visibilidade promovendo esse conteúdo.

Falando sobre a rede Hello eu fico muito feliz em ter sido um dos primeiros a usar e quando o Facebook lançou posts com fundo colorido achei engraçado porque a Hello é a rede que lançou esse formato de post. Como o senhor viu isso e quais foram os aprendizados que o senhor já teve com a Hello?

 

Antes de tudo, gostaria de dizer que a imitação é a forma mais elevada de lisonja. Isso só mostra que estamos no caminho certo e tomando as melhores decisões. Sobre a Hello nós fizemos o lançamento da rede primeiro no Brasil e temos tido várias aprendizagens desde então.

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É importante que aplicativos sejam escaláveis (aplicativos escaláveis no mundo das statups são os programas que conseguem crescer aumentando sua base de usuários de forma rápida). E uma das coisas que aprendemos ao lançar o app no Brasil foi que muitos usuários ainda tinham celulares antigos rodando versões antigas do Android.

O simples fato de suportar versões antigas do Android fez com que o nosso número de usuários e alcance aumentasse drasticamente.

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Nós falamos hoje sobre bolhas sociais e então aqui no Vale do Silício nós vivemos numa bolha onde todos tem iPhone e troca de aparelho no máximo a cada dois anos. Então quando eu sai dessa bolha vi uma outra realidade. O simples fato de suportar versões antigas do Android fez com que o nosso número de usuários e alcance aumentasse drasticamente. Outra coisa foi entender que nem todos tinham uma alta velocidade de conexão e então tivemos que nos adaptar a isso.

Agora falando no produto nos melhoramos nossa interface dando um ar mais fresco (no sentido de novo) e uma navegabilidade melhor, permitindo mais formas de compartilhamento. Também temos as comunidades que é algo que faz tempo que os usuários estavam solicitando e também uma versão mais leve (se referindo a consumo de dados e bateria).

E avançando um pouco mais nós teremos mais tipos de mídia disponíveis, mais personas (na Hello você pode ter vários perfis baseados em interesses que são chamados de personas)  e vamos ter a possibilidade de colocar links nos posts.

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E teremos vídeos na Hello?

 

Adicionar vídeos mudaria a experiência do serviço e por enquanto achamos que não é o momento. Mas vamos adicionar links e aprender com isso e aí vamos aprender um pouco mais e ver se no futuro trabalharemos com conteúdo em vídeo.

 

Eu fico um pouco receoso de perguntar sobre o futuro porque isso muda toda hora, mas se você fosse um autor de Black Mirror ou WestWorld e fosse escrever um episódio dessas séries, porém usando elementos de redes sociais e uma pitada de realidade como seria esse episódio?

 

Interessante que você tenha mencionado Black Mirror e WestWorld porque WestWorld é a minha série de TV favorita. Eu acho uma série incrível. E eu também sou fã de Black Mirror e o meu episódio favorito é Hang the DJ (“Hang the DJ” é o quarto episódio da quarta temporada da série e fala sobre um relacionamento amoroso apoiado por um sistema de Inteligência artificial futurista) eu recomendo fortemente que todos vejam esse episódio porque ele é incrível e fala sobre namoro on-line.

Se eu tivesse que imaginar um episódio de Black Mirror… Vejamos.. Durante a vida nós precisamos conhecer várias pessoas, e temos que acertar a escolha dessas pessoas para nós sentirmos seguros, nos sentirmos felizes e amados. Porém nós temos que fazer um esforço tremendo para criar novas conexões e na maioria das vezes nós não sabemos exatamente com quem falar ou quanto tempo de conversa devemos dedicar a cada pessoa. É um pouco caótico manter relacionamentos. Então nesse episódio as pessoas usariam um serviço que organizaria todas essas relações sociais, definindo com quem vale a pena interagir ou não e quanto tempo dedicar a cada interação.

Ainda falando sobre o futuro eu fico um pouco preocupado com o trabalho para as pessoas no futuro. Eu sou um entusiasta na tecnologia e adoro as coisas que estão sendo feitas com inteligência artificial e fico maravilhada ao ver as possibilidades que Block Chain pode trazer ao mundo. Mas vejo cada vez menos humanos trabalhando na indústria, por exemplo. Como o senhor vê essa questão do futuro do emprego e consequentemente das pessoas?

Falando sobre Block Chain (grosso modo é uma blockchain é uma tecnologia que visa a descentralização de dados como medida de segurança), é uma tecnologia disruptiva de fato e vai trazer muitas inovações de custo baixo para novos modelos de negócios surgindo a partir dessa tecnologia e não só no setor financeiro como vemos hoje.E então pode ser que com tudo isso não precisemos mais de humanos desenvolvendo determinadas atividades.

Nós também teremos mais tempo livre para fazer as coisas que somos apaixonados, sermos mais criativos.

pic orkut 9 e1518720784141 - Em entrevista exclusiva criador do Orkut fala sobre o presente e o futuro da tecnologia Orkut Buyukkokten Criador da rede Hello

E toda essa inovação não é necessariamente ruim para a humanidade ou a indústria. Se eu pudesse te dar um exemplo seria o UBER que criou uma nova oportunidade de trabalho para milhões de pessoas no mundo e essa oportunidade nem existia antes. E se você olhar o futuro a você pode imaginar que alguns trabalhos que existem hoje não exigem muito esforço mental, por exemplo, você não precisará de pessoas dirigindo caminhões, porque os veículos vão dirigir sozinhos. Mas atividades que envolvem a arte, a criatividade e o storytelling, coisas que envolvem atividades que são essencialmente da natureza humana não vão acabar. O ramo de serviços é um bom exemplo: se você vai a um bar ou um café e quer que o atendente não só sirva a bebida, mas quer também que ele converse um pouco com você, escute seus problemas e quem sabe dê uma sugestão do que fazer. Esse tipo de atividade um robô não consegue fazer.

Nós também teremos mais tempo livre para fazer as coisas que somos apaixonados, sermos mais criativos. Teremos mais tempo para ler e escrever coisas. Jornalistas e autores terão mais oportunidades do que nunca. E você também pode pensar a mesma coisa sobre a indústria da música, das artes, dos games bem como outras indústrias.

Uma mensagem final aos leitores brasileiros que sempre foram muito fãs da rede social Orkut?

Sim nós estamos muito felizes com o lançamento das comunidades na rede Hello. Nossos usuários estão passando 320 minutos por mês na rede o que é maior que o tempo gasto em redes como o , Instagram, Twitter e Snapchat.

hello 1024x768 - Em entrevista exclusiva criador do Orkut fala sobre o presente e o futuro da tecnologiaAinda não dá para comparar com o o Facebook porque eles tem bilhões de usuários. Mas olhando de forma quantitativa nós estamos tendo um excelente retorno dos usuários. Isso tem sido incrível e nós amamos e queremos agradecer muito o amável público brasileiro por toda essa participação na Hello e também por todo apoio que tem sido extraordinário.

fotos: divulgação

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