Crônica dos 40 I: não tive coragem de ir assistir o novo filme do Snoopy

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Quando eu vi os primeiros traillers do novo filme do Snoopy confesso que balancei. O desenho do Minduim (como eu conheci) e sua turma foi sem dúvida algo muito importante na minha infância.

Eu não tinha um cachorro (tinha um de pelúcia azul chamado Amigão, mas acho que nesse caso não conta) e fora isso tinha muito mas muito em comum mesmo com o Minduim. A começar pelo nome, migrar de Armindo para Minduim era algo mais comum do que você imagina. Quando alguém queria ser legal ou tentar emplacar um apelido invarialvelmte o Minduim voltava.

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E aqui cabe uma digressão importante – pelo menos eu julgo que seja – raras vezes eu tive apelidos. Isso porque eu simplesmente nunca liguei e até os dias de hoje é assim. Se me chamam de Armando, Arlindo, Armínio ou qualquer outra variação que você possa pensar eu simplesmente vou atender. Então ser chamado de Mindão, Dinho, Minho (normalmente crianças) ou Minduim nunca foi algo que realmente me importava. Tive pouco ou quase nenhum contato com o meu pai mas até onde eu sei tive um avô químico português chamado Armindo Ferreira e ele em uma justa homenagem me chamou do nome do meu avô paterno e lembro vagamente de saber que existiram outros Armindos na família. No mundo digital ter um nome diferente nem é tão ruim assim e realmente hoje isso até me ajuda: você não vai ver muitos Armindos por aí…

Mas minha semelhança com o Minduim ia muito mais que o nome. A gente tinha muita coisa em comum mesmo. Charles Schulz quadrinista estadunidense que criou a turma toda sabia o que estava fazendo em alguma criança você ia acabar se identificando. O Linus vivia com um cobertor de segurança, o Schroeder introspectivo menino músico e a Lucy que entre outras coisas fazia questão de ser o maior pesadelo do Charlie Brown.

E tinha claro o Snoopy que era algo meio alucinógeno no sentido de que ele podia voar ou morar numa casa enorme apesar de ser uma casinha de cachorro. Seu melhor amigo passarinho amarelo chamar Woodstock não é a toa não meus caros.

Eu desde muito cedo sempre fui muito nerd. Depois da separação dos meus pais as condições não eram lá muito boas e tive a oportunidade de estudar com uma bolsa num dos melhores colégios da cidade. Eu mesmo pequeno abracei a causa e entendi que estudar para valer era um diferencial e uma forma de me proteger. Aos 9 anos já sabia programar em computadores e sempre tive notas realmente boas.

Mas ser nerd naquele tempo era obrigatoriamente sinônimo de não-popular. Charlie Browm era bem inseguro e eu também. Cada neura dele, cada medo dele, era um espelho do que eu vivia. Se você acompanhou os desenhos como eu deve lembrar do primeiro beijo dele. Eu fui dar uma fuçada no Youtube e achei essa preciosidade:

Ao término do primeiro beijo ele simplesmente não lembrou de nada. E poderia jurar que foi assim com o meu primeiro beijo também. “E qual a vantagem de fazer tudo isso se a gente não lembra de nada?” – boa pergunta Minduim boa pergunta.

Charlie Brown era péssimo nos esportes assim como eu. Ele no baseball eu no Handball. No meu tempo de escola os líderes iam escolhendo seus times e sim eu era obrigatoriamente um dos últimos a ser escolhido e não os culpe: eu nunca fui bom de bola. Ver Charlie Brown sem nunca ter feito um homerun era um alívio para mim e lembro de uma vez num campeonato interno ter feito um único gol e aquilo ter virado o acontecimento do ano. Acho que em toda vida escolar deve ter sido o único.

Nosso amigo teve que lidar com as mudanças dos amigos. Com aqueles que chegaram e partiram. Alguns eu lembro o nome, sobrenome e apelido até hoje. Outros eu não lembro de quase nada. E tem alguns que tenho contato até hoje e mesmo de longe fico feliz em ver que todos de alguma forma tocaram suas vidas de uma forma muito especial.

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Amizades nessa fase da vida são realmente especiais e lembro de ter vários momentos bons com todos principalmente quando comecei a tocar numa banda marcial. A gente ensaiava muito e as apresentações eram muito legais. Eu nunca fui um bom músico também, mas era também quando o Charlie Brown se sentia bem eles até montaram uma banda e olha a carinha de feliz tocando. Tenho boas recordações dessa fase e me sinto muito agradecido por ter estudado em uma escola que apesar de ser tradicional estimulava várias competências nossas.

Lucy e a vida

Talvez os momentos que tive mais raiva nos desenhos era quando a Lucy tirava a bola dele no momento do chute. Sim ele sempre ia cair e ele até tentava evitar, mas ele mesmo assim ia e ela sempre – sempre – tirava a bola para que Charlie caísse de uma forma bem a) dolorida b) embaraçosa.

Confesso que até hoje ainda sinto a mesma raiva da infância vendo a cena. Mas hoje consigo ver uma importante lição nisso tudo. Nem sempre vão segurar a bola para você chutar – mesmo que prometam isso – e uma hora você vai cair. E aí que você vai levantar e tentar chutar a bola de novo – claro.

https://www.youtube.com/watch?v=055wFyO6gag

E então quando voltaram com um remake do Snoopy não tive coragem de ir assistir não pelas recordações que são muito boas – mesmo as mais doloridas – mas não quis mexer numa imagem já tão sólida na minha cabeça. Resolvi deixar guardadas as recordações das inseguranças que tive e de como elas me ajudaram a ser o que sou hoje.

E se eu tenho coisas do Minduim nos dias de hoje? Claro! Sempre quando organizo um evento quase não durmo na noite anterior e fico muito agitado antes de algum acontecimento importante. E sigo chutando a bola: a diferença é que a gente aos 40 aprende a cair menos.

Crônica dos 40

E resolvi compartilhar tudo isso com vocês porque estou praticamente a um mês de completar quarenta anos de idade e prestes a entrar no meu inferno astral resolvi escrever uma séria de 5 posts especiais sobre a data.

É meio bobo eu sei afinal de contas a gente faz aniversário todo dia e 40 anos não quer dizer nada, mas se dizem que a vida começa justamente nessa idade quero comemorar com você leitor a minha pré-existência e depois lançar essa coletânea de crônicas num e-book da Amazon.

E já pra adiantar não estou nada preocupado: a gente envelhece mesmo e ter esse entendimento com sabedoria é algo que quero pra mim. E penso que nos dias de hoje ter 40 anos é bem diferente dos 40 anos do meu pai e do meu avô, mas isso falamos na nossa próxima Crônica dos 40.

 Foto: Gilberto Augusto Freitas

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