A pesquisa TIC Educação 2025 mostrou um retrato que, até pouco tempo seria difícil de imaginar dentro da escola brasileira. Mais da metade dos gestores educacionais, 53%, já usa inteligência artificial generativa em atividades de gestão pedagógica, administrativa ou financeira, principalmente na criação de conteúdos audiovisuais. Entre as instituições, 37% já permitem que os próprios estudantes utilizem essas ferramentas em tarefas escolares.
Os números sugerem uma corrida silenciosa. Escolas testando, adotando, liberando o acesso, tudo no ritmo acelerado que a IA impôs a praticamente todos os setores desde o lançamento do ChatGPT. Mas essa corrida não é unânime.
O Instituto GayLussac, um dos colégios mais tradicionais do país, decidiu ir contra a maré. A instituição adotou uma política formal proibindo o uso de inteligência artificial por crianças até os 13 anos. Não é uma restrição pontual, é uma diretriz documentada, que separa claramente o que é permitido para adultos, professores e funcionários, e o que é vetado para o público infantil.
A diretora-geral do colégio, Luiza Sassi, explica a lógica por trás da decisão. Para ela, o problema não é a ferramenta em si, é o momento em que ela entra na vida de quem ainda está construindo as bases cognitivas que permitem usar IA de forma crítica. Facilitar demais, cedo demais, pode significar aprender de menos.
Em entrevista exclusiva ao Blog do Armindo, ela detalhou um pouco mais a visão da empresa quando o assunto é Inteligência Artificial.
Confira a entrevista completa com Luiza Sassi.

Blog do Armindo: Os 53% de gestores que usam IA generativa fazem isso principalmente para conteúdo audiovisual. Isso é avanço estratégico ou só a aplicação mais óbvia e fácil de implementar, sem que exista ainda um uso pedagógico mais profundo por trás?
Luiza Sassi: Acredito na facilitação da aplicação sem que tenham sido analisados os ganhos e efeitos pedagógicos.
Há uma diferença grande entre 53% dos gestores usando IA e apenas 37% das instituições liberando o uso para os alunos. Essa distância revela desconfiança da escola em relação ao próprio corpo docente para mediar o uso, ou é falta de política clara mesmo?
É preciso que vejamos a diferença entre o uso da IA para o adulto e para a criança; as instituições não devem usar IA com crianças até 13 anos. Isso porque a facilitação vai provocar a eliminação de aprendizagens que são necessárias de serem construídas. Hoje os adultos usam a IA com os recursos de cognição que já adquiriram anteriormente. Desse modo, o adulto tem repertório e condições de fazer a análise do que a IA lhe entrega. Se as crianças fizerem uso precocemente, elas serão desprovidas de aprender e ficarão menos inteligentes e sem condições de ter uma análise crítica sobre a IA.
No Instituto GayLussac, existe uma política formal e documentada de uso de IA para alunos, ou ainda é uma prática tolerada caso a caso, professor por professor?
Sim, temos uma Política de Uso de IA formal e documentada para as crianças até 13 anos, em que o uso é proibido, e para os professores e funcionários.
A formação de professores costuma aparecer como gargalo nesse tipo de pesquisa. No caso de vocês, o problema é resistência dos docentes ao uso da ferramenta, ou é falta de tempo e estrutura para capacitação de fato?
Os professores são abertos ao uso da IA em sua prática pedagógica; trata-se de facilitador.
Como equilibrar o discurso de pensamento crítico e uso ético da IA com o fato de que boa parte do mercado de trabalho já exige fluência nessas ferramentas? Não formar o aluno para usar IA também é uma forma de despreparo?
A IA já é uma realidade posta e, para se ter pensamento crítico, a IA precisa entrar na vida das pessoas após o processo de formação inicial e cognitivo até os 13 anos. A partir daí, os alunos já poderão fazer uso de modo consciente e com pensamento crítico ativo.
Além do uso com os alunos e professores, os processos administrativos no Instituto GayLussac também estão usando ferramentas de IA? Poderia detalhar algum case ou uso concreto?
Sim, usamos IA em diversas atividades. Toda a transposição do calendário anual era feita manualmente e agora fazemos com a IA. Esse é um dos inúmeros exemplos que utilizamos no cotidiano.
Enquanto o resto do mercado educacional discute como acelerar a adoção de IA em sala de aula, o Instituto GayLussac discute até quando vale a pena esperar.




