Eu estive em São Paulo a convite da Corning do Brasil para conhecer novidades da empresa para o setor de data centers. Estiveram presentes os principais executivos da empresa, entre eles o Kevin Hussey, que é vice-presidente para a área de data centers, e Flávio Guimarães, que é presidente da Corning na América Latina e Caribe. Foi um café da manhã muito produtivo, em que pudemos entender mais não só a visão da marca sobre o assunto, como também debater detalhes importantes sobre esse tema, que envolvem também questões ambientais, por exemplo.
A expansão da inteligência artificial está provocando uma transformação na infraestrutura que sustenta os serviços digitais, aumentando a demanda por data centers e, consequentemente, por conexões de alta capacidade. Nesse cenário, a Corning, empresa que completa 175 anos em 2026, vê o Brasil como um mercado de importância estratégica e avalia novas oportunidades para ampliar sua atuação no país.
“Vemos o Brasil como um mercado emergente de grande importância para nós”, afirmou Kevin Hussey, vice-presidente comercial da divisão de Data Centers da Corning, durante encontro com jornalistas, em entrevista exclusiva para mim. Segundo o executivo, clientes da companhia vêm sinalizando planos de investimento na região. A visita ao Brasil, de acordo com Hussey, teve justamente o objetivo de ouvir clientes, entender o ciclo de investimentos e avaliar quais produtos e tecnologias serão necessários para acompanhar o crescimento do mercado.
A demanda é impulsionada, entre outros fatores, pela evolução da inteligência artificial. Data centers destinados a aplicações de IA precisam de arquiteturas de rede com maior capacidade de processamento e conectividade. Para a Corning, isso abre espaço para novas soluções ópticas capazes de aumentar a densidade de transmissão e, ao mesmo tempo, reduzir as limitações físicas de infraestrutura.
Fibra ganha protagonismo na infraestrutura de IA.
A Corning vem trabalhando em tecnologias para acompanhar essa mudança. Entre as novidades apresentadas pela empresa está a fibra óptica multicore, que incorpora quatro núcleos em uma única fibra. A proposta é aumentar a capacidade de transmissão, mantendo a mesma ocupação física, permitindo maior densidade de conexões dentro da infraestrutura dos data centers.
A companhia também apresentou soluções voltadas à conectividade de alta densidade e ao avanço das velocidades de transmissão. Entre elas estão conectores baseados em lentes e tecnologias de Co-Packaged Optics (CPO), que aproximam a comunicação óptica dos componentes de processamento.

Para Hussey, entretanto, o diferencial da Corning não está apenas na criação de novos produtos. A empresa procura participar do desenvolvimento das soluções desde a etapa de arquitetura das redes.
“Normalmente, eles buscam nossa experiência óptica ao avaliarem as compensações de design em suas redes”, explicou o executivo. Segundo ele, clientes procuram a Corning quando encontram novos desafios técnicos, que podem resultar em ciclos rápidos de desenvolvimento de produtos. Depois, a companhia utiliza sua capacidade industrial para levar essas soluções à produção em escala global.
A Corning explica que os data centers tradicionais e os construídos para IA têm necessidades muito diferentes de conectividade. A arquitetura voltada para IA exige muito mais interconexões ópticas, em função da quantidade e da distribuição dos aceleradores de processamento. Eles também explicaram que apostam em um modelo de compartilhamento de riscos com seus clientes para acompanhar a velocidade de expansão da infraestrutura de data centers. Segundo a empresa, a ampliação da capacidade de produção pode envolver compromissos antecipados de compra, reserva de volumes e investimentos dos próprios clientes para ajudar a viabilizar a expansão industrial. A estratégia busca dar maior previsibilidade à cadeia de suprimentos em um mercado no qual a demanda pode crescer rapidamente, mas também está sujeita aos ciclos de investimento em tecnologia.

Brasil deve viver ciclo de expansão.

Na avaliação de Flávio Guimarães, presidente da Corning International para a América Latina, o Brasil reúne características que podem favorecer a expansão da infraestrutura de data centers.
Entre os pontos positivos citados pelo executivo estão a disponibilidade de energia, a participação de fontes renováveis na matriz elétrica, a extensão territorial e a existência de profissionais qualificados nas áreas de tecnologia, software e programação.
“O Brasil tem tudo para ser um player global na área de data centers”, afirmou.
Ao mesmo tempo, Guimarães considera que existe um desafio relacionado à velocidade com que o país consegue responder ao crescimento da demanda. Ele cita especialmente questões relacionadas à infraestrutura energética e à competitividade para a entrada de equipamentos no país.
Para o executivo, portanto, o potencial brasileiro é grande, mas depende da capacidade de o país criar condições para acompanhar o ritmo de expansão do setor.
Latência pode estimular uma infraestrutura mais distribuída.
A extensão territorial brasileira também cria uma questão importante para a infraestrutura digital: a distância entre os centros de processamento e os usuários. Guimarães explica que algumas aplicações podem tolerar o processamento de dados em locais mais distantes, enquanto outras dependem de baixa latência. Ele cita como exemplo serviços que exigem respostas rápidas, como transações bancárias.
Segundo o executivo, atualmente existe concentração de data centers na região Sudeste, mas a necessidade de reduzir a latência pode favorecer uma distribuição mais ampla da infraestrutura. O Ceará, por exemplo, foi citado por Guimarães como uma região interessante pela proximidade com rotas de cabos submarinos que conectam o Brasil a outros mercados.
A tendência, segundo ele, não significa que data centers serão distribuídos de maneira uniforme pelo território nacional. A proximidade de grandes centros consumidores e da infraestrutura de conectividade continuará sendo determinante para definir a localização dessas instalações.
O desafio de ter um data center como vizinho.

A expansão dos data centers também enfrenta um desafio que vai além de infraestrutura e investimentos: a relação com as comunidades onde essas instalações são construídas. Durante o encontro, eu perguntei sobre esse comportamento da população, que quer os benefícios da tecnologia, mas nem sempre deseja ter uma grande infraestrutura instalada perto de casa.
Kevin Hussey comparou a situação ao debate que acompanhou a expansão da telefonia móvel. Segundo ele, durante o início de sua carreira, era comum a ideia de que todos queriam ter sinal de celular, mas ninguém queria uma antena instalada no próprio quintal.
O executivo relatou ainda ter morado recentemente em Ashburn, na Virgínia, região conhecida pela concentração de data centers, e ter acompanhado de perto tanto os benefícios quanto os impactos dessas instalações para a comunidade.
Para ele, a indústria precisa melhorar a comunicação com a população. As empresas responsáveis pela construção e operação dos data centers, especialmente os grandes provedores de infraestrutura digital, precisam explicar melhor os benefícios dessas instalações e das tecnologias que elas viabilizam, além de dialogar com as comunidades e autoridades locais.
No Brasil, Flávio Guimarães acrescentou outro aspecto à discussão: o potencial dos data centers para aumentar a demanda por energia em um país que vem ampliando a geração renovável. Na avaliação do executivo, instalações que operam continuamente podem representar uma oportunidade para o sistema elétrico, desde que sejam planejadas de acordo com a infraestrutura disponível.
Corning amplia cadeia local.
O crescimento da demanda também está levando a companhia a adaptar sua operação brasileira. De acordo com Guimarães, a Corning está desenvolvendo um ecossistema local para realizar a montagem final de projetos de fibra destinados a data centers. A empresa continua importando determinados componentes, como fibras e conectores, mas passa a realizar localmente a configuração final das soluções.
Isso inclui definir o comprimento dos cabos, a quantidade e o tipo de conectores e a configuração das extremidades de cada projeto. A estratégia busca reduzir prazos de entrega e aproximar a operação das necessidades dos clientes.
A escala desses projetos ajuda a dimensionar o desafio. Durante a apresentação, vimos um caso de um campus de data centers que utiliza mais de 90 mil fibras para realizar a interconexão entre os data centers.
É justamente nesse cenário que a fibra multicore ganha relevância. A tecnologia desenvolvida pela Corning coloca quatro núcleos ópticos dentro da mesma fibra, permitindo quadruplicar a capacidade de transmissão no mesmo espaço físico. Na prática, isso pode reduzir significativamente a quantidade de infraestrutura necessária para acomodar as conexões, um aspecto importante em ambientes onde espaço em dutos, racks e outros elementos físicos é cada vez mais disputado.
Ainda falando sobre contribuição local, a companhia afirmou que tem parcerias estratégicas com universidades, de forma a fazer uma importante interface com professores, pesquisadores e alunos.
Microsoft entre os principais clientes.
A expansão dos data centers também já aparece na carteira brasileira da empresa. Guimarães afirmou que a Microsoft tem sido o maior cliente da Corning no Brasil nos últimos anos. Segundo ele, grandes clientes globais demandam da companhia no Brasil um nível de serviço semelhante ao oferecido pela Corning em mercados como Estados Unidos e Europa.
Esse movimento cria uma pressão adicional para que a cadeia de fornecimento brasileira consiga acompanhar padrões globais de prazo, qualidade e competitividade.
Uma empresa que vai além do vidro.
A discussão sobre data centers também ajuda a explicar a transformação da própria Corning. Embora seja frequentemente associada ao vidro, a companhia atua em diferentes áreas, utilizando tecnologias relacionadas a materiais, óptica e manufatura.
“Nosso principal objetivo no mundo é trazer inovações que transformam vidas”, afirmou Kevin Hussey.
O executivo citou aplicações em ciências da vida, setor automotivo, controle de emissões e eletrônicos de consumo, incluindo componentes utilizados em dispositivos como smartphones, televisores e tablets.
Agora, a infraestrutura necessária para a inteligência artificial se tornou mais uma frente de crescimento. Ao completar 175 anos, a companhia aposta justamente em uma característica que considera parte de sua trajetória: a capacidade de transformar conhecimento em materiais, componentes e tecnologias aplicadas a novos mercados.
E, na avaliação de seus executivos, o Brasil pode ter um papel relevante nessa próxima etapa, desde que consiga transformar suas vantagens naturais e sua capacidade tecnológica em infraestrutura competitiva para a nova economia baseada em dados e inteligência artificial.




