Eu estive em São Paulo a convite da Tencent Games para participar de uma coletiva de imprensa a estratégia de chegada do CrossFire Legends ao mercado brasileiro. O movimento busca reposicionar a franquia em um cenário dominado por títulos consolidados de tiro em primeira pessoa (FPS), combinando três frentes: diferenciação clara de produto, construção de um ecossistema robusto de eSports e iniciativas de responsabilidade socioambiental adaptadas ao país.
Velocidade como diferencial competitivo.
Embora não seja exatamente uma estreia no Brasil, o relançamento marca uma nova abordagem para o jogo – tanto na versão para PC quanto para dispositivos móveis, sob o título CrossFire Legends. Durante a coletiva de imprensa, eu quis saber como eles pretendem atuar num mercado em que o Counter-Strike é muito forte e da mesma empresa, mas de divisões diferentes, o Valorant, que conquistou rapidamente o público local.
Quem me respondeu foi o Jiahao Lin, CrossFire Esports Brand Lead, da Tencent Games. Ele me explicou que a estratégia passa por reforçar diferenças estruturais entre os jogos. Enquanto Valorant se baseia em heróis com habilidades táticas e exige que o jogador pare para atirar com precisão, CrossFire aposta em ação contínua, ritmo acelerado e liberdade de movimento, permitindo correr e atirar simultaneamente. A proposta é oferecer partidas intensas com duração de apenas 2 a 3 minutos, alinhadas a rotinas mais curtas – especialmente para o público de PC, descrito com faixas etárias maiores e, portanto, menos tempo disponível. “Com três minutos você consegue uma partida com adrenalina”, explicou Jiahao com o suporte de uma simpática tradutora.
Sobre CS ele falou de uma maneira geral que a ideia deles é ter um game que tem uma comunidade constante e com foco, assim a prioridade deles não será bater de frente, mas proporcionar uma comunidade coesa. Em resumo, Crossfire reconhece a base cultural do CS no Brasil, mas busca nichar o mercado de FPS através da velocidade e da ação dinâmica para atender a um público específico.
Uma coisa que me chamou a atenção foi como CrossFire é um sucesso na China e há muito tempo, um game que é foi jogado por pais, filhos e agora até netos. Os números são impressionantes.
A expansão do universo de CrossFire também se reflete em seus ativos de propriedade intelectual. A websérie lançada em 2020 tornou-se o produto mais bem avaliado já associado ao jogo, acumulando 81,89 milhões de visualizações diretas e ultrapassando 2 bilhões de views em toda a internet. O tema relacionado ao conteúdo já soma 13,3 bilhões de visualizações, demonstrando o alcance cultural da marca. Essa evolução do IP inclui ainda o projeto CrossFire HeartShot, que combina personagens clássicos do jogo com Idols virtuais, ampliando o apelo entre novas audiências. Ao longo de 17 anos, o desenvolvimento contínuo e a expansão do universo narrativo consolidaram uma comunidade ampla, diversa e emocionalmente ligada à franquia.
eSports como pilar de construção de comunidade
Segundo a Tencent, o objetivo é criar um ambiente competitivo “saudável e autossustentável”. Para isso, a empresa pretende articular múltiplos componentes do ecossistema:
- regras e regulamentos consistentes
- produção de conteúdo e transmissões
- plataformas estáveis para espectadores
- desenvolvimento de narradores, comentaristas e streamers
- amadurecimento e engajamento da base de fãs
A companhia já iniciou conversas com clubes renomados, produtoras de eSports e influenciadores brasileiros. Há planos de promover competições antes mesmo do lançamento oficial e de convidar equipes e jogadores do Brasil para torneios internacionais – incluindo a Copa da Ásia – como forma de integração e visibilidade global.
A resposta da comunidade também foi determinante: brasileiros apareceram de forma recorrente em canais globais pedindo o retorno do jogo, o que a empresa descreve como um “forte incentivo”. Mais de 500 comentários chamaram a atenção da Tencent.
Público dividido, mas engajado
Os executivos observaram perfis distintos para cada plataforma:
- PC: jogadores mais experientes, muitos com família e pouco tempo disponível
- Mobile: jovens estudantes, com maior volume de usuários
O foco declarado é fidelizar o “usuário central”, e não competir por atenção com públicos casuais. A força da base foi ilustrada com um número recente: 25 milhões de participantes em um evento temático dentro da versão mobile.
Sustentabilidade e causas locais entram na estratégia
A agenda de responsabilidade socioambiental – já presente globalmente – será localizada para o Brasil. O modelo funciona em parceria com instituições especializadas, sem aporte direto da empresa: os jogadores arrecadam fundos, e as entidades executam projetos. A Tencent atua como “estação de monitoramento”, registrando fenômenos ambientais com imagens, tecnologia e inteligência artificial.
O tema global atual é a proteção de geleiras, alinhado à ONU. Para o Brasil, podem vir outros temas, a Tencent inclusive esteve presente na COP 30. A empresa planeja integrar essa narrativa a eventos competitivos dentro do jogo, como confrontos simbólicos entre regiões, e dialogar com escolas e universidades sobre educação ambiental.
Lançamento depende de nacionalização profunda
O retorno está previsto para 2026 no cenário mais otimista, mas a data final permanece aberta. A Tencent afirma que o lançamento só ocorrerá quando o processo de nacionalização estiver completo -incluindo estética, referências culturais e conteúdo cocriado com parceiros locais, para garantir que o produto tenha a “cara local”.
Tivemos também uma apresentação muito boa com o John Shen, Senior PR Manager, Tencent. Ele é super simpático e carismático e tivemos uma ótima conversa antes do evento. Shen falou mostrou um pouco do tamanho da Tencent e das marcas que gerencia (chamadas de IPs). É impressionante.
No final das contas, eu saí do evento com uma sensação muito boa de que a empresa está disposta a somar ao mercado brasileiro e fortalecer não só a comunidade, como o mercado competitivo. Merece a sua atenção.




