Quem está pensando a mídia regional no futuro do Vale do Paraíba?

Essa semana tive a felicidade de participar de um evento de pessoas que estão discutindo e tentando colaborar para o futuro de São José dos Campos e consequentemente do Vale do Paraíba.

E aí um instituto fez uma pesquisa para o poder público com os desafios e oportunidades do futuro da cidade para 2035. Tinha coisa muito legal e as constatações de algo que a gente vê aos poucos no cotidiano da cidade: o fato da indústria estar saindo da cidade para dar lugar ao serviço e comércio. Também mostrou como a cidade busca espaços nas humanidades num berço de exatas.

Foram ouvidas cerca de 40 pessoas influentes na cidade de diversos segmentos. Porém uma coisa me chamou a atenção. O desenvolvimento da mídia local e principalmente do jornalismo são vetores importantes do crescimento regional certo?


 

E nesse quesito só foram ouvidos players da indústria da comunicação tradicional com a visão mais tradicional do mundo. Já por outro lado o consumidor da mídia tradicional de hoje é também o protagonista da mídia / jornalismo/ publicidade do futuro mas não apareceu no radar da discussão. Daqui a 30 anos capaz de não termos nem o YouTube imagina um jornal impresso ou um modelão tradicional de portal. O questionamento não tira o mérito do estudo e das conclusões apresentadas mas fiquei pensando como a gente resolve problemas do futuro com o olhar tradicional ou da pra usar velhos mapas para novas rodovias?

https://www.youtube.com/watch?v=GvSLdhzVIOw
 

A cidade que respira
Mesmo com todo o olhar técnico aos poucos São José dos Campos tem tido respiros de cultura e criatividade. Seja os flows ou seja o surgimento dos espaços de Co-Working (pelas minhas contas já são quatro), dos eventos organizados pela Carmem Alvim/Teaser que discutem a Arquitetura, o Urbanismo e o Design da cidade.

O professor Fernando Moreira, mesmo com as mudanças que a Univap veio sofrendo nos últimos anos, é um representante regional em diversos movimentos de TV Comunitárias e Universitárias mundiais e com todo limite imposto pela realidade econômica atual tenta trazer um pouco dessa discussão para a cidade, mas sabemos que é pouco e não por culpa dele ou da Univap, mas do contexto.

Há também o Bilac que há cerca de dois anos criou uma sala de aula do futuro e para a formação de educadores para o futuro. Há ainda o LEDI – espaço público criado para entre outras coisas discussão da cultura maker na cidade. E o Creative Space que – no Parque Tecnológico de São José dos Campos – procura dar voz para produtores de conteúdo digitais que não se encaixam em nenhum outro movimento urbano.

E haverá claro uma dezena de outros movimentos que por serem de nicho nem sempre estão no radar, mas se você quiser colaborar será bem-vindo. E aí reforçamos a pergunta acima que é, quem está discutindo essa cidade invisível?

O Jornalismo regional caminha para onde?

Como já disse acima deveria ser um consenso a importância do investimento num jornalismo regional estruturado e principalmente isento e plural e que leve a informação realmente de fato ao cidadão metropolitano do Vale. As cidades vão aos poucos se conurbando (se juntam tanto que parecem uma só e você não sente quase a diferença de quando saiu de uma para outra, as cidades vão crescendo para suas periferias e colando uma nas outras) e vão tendo novos desafios. O morador de Cruzeiro é tão valeparaibano quanto o de São José dos Campos certo? Mas será que ele se sente assim?

Temos sim atualmente veículos de comunicação locais e o mais forte talvez seja a TV Vanguarda, que recentemente tem investido pesado em tecnologia com coberturas por helicópteros e aplicativos que descentralizam a produção de informação e fontes para novos níveis. Temos a BandVale que tem uma presença forte na região de Taubaté e temos um jornal impresso que respira (ou suspira), algumas rádios e um portal independente de outro veículo e só. Há claros outros veículos menores, mas estou aqui me detendo ao cenário metropolitano.

Mas aí esse é o olhar do presente e o do futuro? Não tô aqui sentenciando a morte de nenhum veículo, mas chamando para reflexão. Quem daqui a 35 anos assistirá a TV ou lerá um portal (quem já lê ou assiste hoje?), qual veículo que temos hoje regionalmente que se assemelha ao BuzzFeed ou ao Mídia Ninja? E os blogs políticos que tem reverberado nacionalmente, não teríamos que ter blogueiros políticos fazendo coberturas parciais e imparciais? Você pode até torcer o nariz mas ter pessoas dos dois lados do time escrevendo tem um nome: chama-se democracia. Então na minha modesta opinião precisamos sim ter blogueiros/youtubers de direita, esquerda, centro e todas as variações possíveis discutindo a política regional. Mas são só possibilidades dentro de uma possível reflexão. 

O principal exercício deveria ser pensar onde estarão os leitores, ouvintes, telespectadores no futuro e onde as mídias vão falar com essas pessoas. Nacionalmente as grandes empresas vão se virar, mas e localmente?

Quem está se formando em jornalismo hoje vai trabalhar onde? Quantos novos postos na imprensa estão sendo criados neste ano na região?

Se você é jornalista ou se interessa pelo tema eu recomendo fortemente este artigo do amigo blogueiro Marcelo Pimenta que traz um olhar importante para a carreira do jornalista.

E quem paga a conta?

De uma maneira bem simplista o poder público e o privado. E em ambos basicamente o mesmo formato que é a compra de espaços publicitários. Eu fiz a pesquisa num site de transparência pública de um município da cidade e com o CNPJ de um veículo em mãos fiz a busca no sistema. De janeiro a junho só em um único veículo foi investido o valor de R$ 598.124.832,60.  Qual é o valor no seu município? Você acha ele adequado? Acha que atende os novos consumos de mídia da população?

Não estou também julgando o montante. Acho que o poder público precisa investir mesmo na comunicação e acho muito limitado quem pensa que poderia pegar esse dinheiro e construir um hospital. Campanhas públicas bem feitas de saúde tiram gente do hospital, ajudam em doações e campanhas de vacinação. É preciso ser estratégico nesse tipo de pensamento.

Mas o mesmo poder público não deveria também investir no fortalecimento de novos meios de comunicação com a população, de forma honesta, transparente e sem apadrinhamentos?

E se pudéssemos olhar o montante investido pela iniciativa privada veríamos que não é muito diferente. E aí entramos num círculo vicioso que é: se investe pouco em novos formatos e na busca de novos veículos. O empresário que vai investir no setor de comunicação pensa duas vezes e acaba investindo, por exemplo, num açougue, e ai teremos mais açougues que novos veículos de comunicação. Mas então como podemos pensar numa imprensa mais livre, democrática e plural e que colabora para o desenvolvimento sustentável da cidade se não temos recursos públicos ou privados para isso?

Apontar o erro é fácil Armindo, mas e como corrige?

Não é fácil mas é possível. Primeiro quem é a entidade de classe local que está discutindo o futuro do jornalismo regional? Quem deveria estar fazendo essa discussão? Quem tem interesse em que tudo isso não vá pra frente?

E na publicidade? Quem está discutindo o futuro do investimento em mídia local? Uma entidade de classe certo? Mas onde elas estão?

Eu sei que é uma discussão complexa e que pode parecer que estou apontando alguns dedos na cara mas não é isso. O que eu quero dizer é que alguns segmentos da sociedade estão discutindo o futuro da cidade, mas a comunicação também precisa dar as mãos e fazer isso de uma forma urgente para justamente apoiar o crescimento sustentado dos demais setores. Por que os mesmos veículos que se reúnem para fazer prêmios não se reúnem para debater?

E eu queria mesmo ter várias respostas, mas não tenho. Só tenho a certeza de que é preciso refletir e rápido.

(este post foi ilustrado por vídeos de produtores de conteúdo regional e que normalmente não aparecem na grande mídia)

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