Samsung faz lançamento inexpressivo do Galaxy S20 em evento sem novidades e num momento que parece ser de atenção para a empresa

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O que se espera de um evento de lançamento é ver novidades, certo? Bem com todo mundo já sabendo tudo sobre os aparelhos, com veículos que tem acesso aos aparelhos e informações privilegiadas em relação aos outros veículos e supostos vazamentos acidentais de informações, qualquer pessoa que tivesse acessado a internet e morasse no planeta Terra naquele dia saberia o que iria acontecer, inclusive os preços.

Mas há sempre uma novidade ou uma carta embaixo da manga e a Samsung sempre foi muito boa nisso. Alias eu já elogiei aqui no blog a qualidade dos eventos da empresa e como eles estabeleceram um marco alto no Brasil ao realizar lançamentos grandiosos. Não foi o que vimos dessa vez.

E o Galaxy S20 prometia afinal de contas a fala do senhor HS Kim (CEO da divisão de eletrônicos da Samsung) fez na CES 2010 o que pra mim foi um discurso histórico ao anunciar uma nova era para a companhia, nas palavras dele “a era da experiência”. E as empresas são escravas de seu discurso corporativo e de suas promessas de marca.

“Na Era da Experiência, precisamos repensar o espaço que temos para acomodar nosso estilo de vida diversificado e em evolução(…) O que torna a abordagem da Samsung única é o fato de termos uma filosofia muito clara, construída em torno da inovação centrada no ser humano. Desenvolvemos e criamos para resolver problemas e melhorar a vida das pessoas.”

H.S. Kim, presidente e CEO da Divisão de Eletrônicos de Consumo da Samsung Electronics na CES 2020.

Além disso ao fazer um salto do Galaxy S10 direto para o S20 prometia-se um marco para uma nova era de uma empresa que acaba de completar 50 anos. Câmera 8K, 5G (que não veio ainda para o Brasil) e um zoom de causar inveja ao principal concorrente nesse segmento, a Huawei, mas guarde esse nome, que voltaremos nele a seguir.

“Portanto, para garantir nossa sobrevivência na nova era, devemos buscar a nossa própria inovação, incansavelmente. Nunca devemos deixar de aprender, de sermos ousados e destemidos em nossas atividades e de darmos o nosso melhor, em todas as nossas tarefas.”

Kinam Kim, vice-presidente e CEO da Divisão de DS em sua fala na comemoração dos 50 anos da empresa.

Ano passado o Galaxy S10 foi lançado num espaço de eventos na própria sede da Samsung, mas cheio de experiências com o aparelho. Houve ainda a #Galaxys10party, um imponente show com a cantora Anitta.

Se no S10 o lançamento foi desse porte o do S20 que prometia uma nova era, 50 anos da empresa; e um salto de 10 versões deveria ser um marco o lançamento do celular, certo?

Não foi o que aconteceu. O lançamento aconteceu num hotel padrão com uma apresentação padrão. Até o teste da câmera de zoom do celular foi exatamente o mesmo realizado pela Huawei ano passado num evento bem mais empolgante e com mais experiências.

Não é algo que você lerá por aí porque a maioria das pessoas fica feliz com presentes (todos que participaram do evento, inclusive eu, ganharam um fone de ouvido de cerca de R$ 1.000,00) e outras ficam com medo de se expressar e ser cortado da lista de convidados para os próximos eventos, mas pelo menos cinco produtores de conteúdo para a internet experientes vieram comentar em off comigo como estavam decepcionados com o lançamento.

Medo é algo que nunca pautou esse blog em mais de seis anos de existência.

Mas afinal de contas o que aconteceu com a Samsung?

Verdades sejam ditas, o cenário não é bom. Estamos no momento de mais cautela do novo Corona Vírus, algo que seria imprevisível no planejamento do lançamento e o mercado brasileiro enfrenta um pico no dólar histórico e isso claro morde parte do poder aquisitivo do consumidor brasileiro. A empresa tem sim bom motivos para fazer algo modesto e simples, sem a cara de lançamentos anteriores ou até mesmo se superando como havia fazendo.

Sites especializados norte-americanos acreditam que as vendas do Galaxy S20 devem ser impactadas pelo cenário global. De acordo com o blog Geeky Gadgets numa livre tradução minha “A Samsung afirmou que as vendas da nova gama de dispositivos S20 são inferiores às esperadas devido ao surto.” Já o site MENAFN estima que essa queda nas vendas seja em torno de 11% no segmento de smartphones em geral. Ainda de acordo com o site, uma das unidades que fabricam os celulares de tela flexível teve que ser fechada por conta de uma suspeita de um dos seus funcionários ter apresentado sintomas do COVID-19. A empresa disse em nota que essa unidade representa uma “uma pequena parte da produção total de smartphones da empresa”.

Some a isso o fato que a Samsung anunciou o aparelho como o mais potente do mercado Android, mas sites especializados têm afirmado que o ROG Phone e o Redmi Note 8 Pro são os aparelhos que mais merecem esse título, isso de acordo com reportagem publicada pelo respeitado site Techtudo, que inclusive é um dos veículos que tem acesso privilegiado aos lançamentos da Samsung, portanto tem com certeza uma autoridade muito grande para indicar a relatividade da performance do S20.

Smartphones da Asus chega ao sexto mês consecutivo de liderança, enquanto Xiaomi faz bonito entre intermediários. Empresa diz que é cedo para avaliar o novo Galaxy S20.

Filipe Garrett, para o TechTudo

Logo pode parecer prudente fazer algo mais modesto e sem novidades. Mas depois de anos cobrindo lançamentos de grandes corporações aqui na nossa terra brasilis eu aprendi que empresas desse porte são players de longo prazo e que eles tem disponibilidade de investir justamente nesses momentos para se manterem saudáveis no mercado. Qualquer executivo global sabe: crises tem prazo para acabar e ganha quem sai fortalecido delas.

Quando você é líder de mercado, faz coisas memoráveis e promete ser inovadora ou “inaugurar uma nova era” o mercado espera cada vez mais de você. Estar no topo te coloca na vitrine: é uma benção e uma maldição.

Então para entender todo esse contexto é importante lembrar que a empresa ano passado teve mudanças no seu board executivo, perdendo uma importante pessoa que cuidava da gestão da marca, e vocês verão a seguir que a marca Samsung passa por alguns desafios, mas por enquanto vou me ater aos números.

Agora sim vamos ao que interessa: resultados. A linha S é um sucesso no Brasil e tem fãs de marcas ávidos por novidades e que ano após ano atualizam seus aparelhos para a versão mais moderna. Saber qual é a marca de celular mais vendida no Brasil é um desafio, já que são pesquisas que dependem de várias fontes ou estudos que podem ser comprados por verbas astronômicas. Em todo caso se pegarmos, por exemplo, o site de pesquisas de preço Zoom veremos que a Samsung não aparece no topo quando o assunto é busca por preços de celulares:

Xiaomi Redmi Note 7
Xiaomi Redmi Note 8
Samsung Galaxy A50
Samsung Galaxy A30
Samsung Galaxy A10

Apple iPhone 8 Plus
Samsung Galaxy A70
Xiaomi Mi 9T
Samsung Galaxy A20
Motorola Moto G7 Play

O estudo foi publicado pelo blog Mobizoo, especializado nesse segmento.

Em 2019 o site de Economia do jornal O Globo indicava que o lucro operacional da Samsung caiu 56% no 3º trimestre apesar dos ganhos com Galaxy Note 10. Voltando um pouco na história para abril de de 2019 o site especializado Tecmundo afirmou que os “Lucros da Samsung caem 60% mesmo com boas vendas do Galaxy S10” e no mesmo site em outubro do ano passado que o “Lucro da Samsung cai quase 56% por baixa demanda de chips“. Em fevereiro de 2020 o site Techtudo indicava que a Samsung em 2019 amargou uma terceira posição no mercado de telefones inteligentes, tendo uma presença mais significativa no segmento intermediário

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E justamente quando olhamos o mercado global veremos que nomes que antes eram inexistentes agora aparecem cada vez mais perto da Samsung, entre eles a startup chinesa Xiaomi – que até pouquíssimo tempo atrás poderia ser considerada uma entrante inexpressiva – e a gigante chinesa Huawei, além de uma velha conhecida da Samsung: a Apple, que de acordo com o respeitado site de notícias norte-americano CNBC, pela primeira vez passou a dianteira na Samsung. Ops, isso deve ter acendido algum alerta na mesa dos executivos da empresa, ou pelo menos, deveria. De acordo com a notícia publicada pelo repórter Ryan Browne, numa livre tradução minha:

A Apple vendeu 72,9 milhões de iPhones no quarto trimestre, de acordo com a Counterpoint Research, superando os 70 milhões de telefones Galaxy vendidos pela Samsung.

A Huawei da China ainda conseguiu superar a Apple em 2019, ocupando o segundo lugar atrás da Samsung, apesar dos ventos contrários à batalha comercial EUA-China.

Apesar da queda no mercado geral de smartphones, os especialistas esperam que o lançamento de mais dispositivos com capacidade para 5G revire as fortunas do mercado em 2020.

Já o site Venture Beat divulgou um interessante estudo que novamente mostra como a Samsung silenciosamente tem enfrentado o desafio dos seus concorrentes. Mais uma vez você verá Apple, Huawei e Xiaomi cada vez mais perto da antes hegemônica Samsung:

Acima: Tabela 2: Vendas mundiais de smartphones a usuários finais por fornecedor em 2019 (milhares de unidades) / Crédito de imagem: Gartner publicado pelo Venture Beat.

Crise de Imagem no Brasil?

A marca Samsung sempre foi uma muito admirada tanto pelo mercado global quanto pelo brasileiro. Mas analisando uma linha do tempo com uma foto maior podemos ver que em 2015 a marca comemorava o fato de ser a segunda marca mais valiosa do mundo, anos depois, precisamente em 2019 a empresa ressaltava sua sexta posição, num ranking onde a Apple aparece em primeiro lugar.

No Brasil a marca é bem reconhecida pelos brasileiros, mais que o mercado global, ficando em segundo lugar num estudo onde o Google aparece na primeira posição.

“Na Samsung, trabalhamos diariamente para trazer inovações que sejam significativas para a vida das pessoas. Esse reconhecimento reforça que estamos no caminho certo. É uma honra poder contar com a confiança e respeito dos brasileiros”

Loredana Sarcinella, Diretora Sênior de Marketing da área de dispositivos móveis da Samsung Brasil.

Mas a empresa tem passado por alguns eventos que aos poucos podem minar a imagem corporativa de uma companhia e seu branding e merecem no mínimo atenção. Em 2018 a empresa usou fotos de banco de imagens feitas por fotógrafos com câmeras profissionais para dizer que eram fotos realizadas por um dos seus celulares. O escândalo foi descoberto e divulgado pelo respeitado site Tudo Celular com o sugestivo título “De novo! Samsung usa foto de câmera profissional para ilustrar captura feita pelo Galaxy A8 Star“. Sim isso foi feito mais de uma vez.

Avisa a Samsung que hoje é a gente que trava

Logo na virada do ano de 2019 para 2020 um assunto no Trend Tropics do Twitter me chamou a atenção:

Mas o que queria dizer esse termo “Avisa a Samsung“? Bem aparentemente no imaginários das pessoas os celulares da empresa travam, termo também usado por quem passa o limite na hora de consumir bebida alcoólica. Eu tirei os prints para explicar melhor os conceitos:

Mas houve quem saísse em defesa da marca:

E até hoje é possível ver esses tuítes que associam a marca com travamentos de uma forma bem-humorada bem característica do consumidor brasileiro no Twitter, mas o quanto tem de verdade numa piada?

Anitta é a influenciadora mais controversa da marca.

Assim como no ano passado a Anitta foi escolhida para ser uma das influenciadoras digitais da marca. Porém nas redes sociais o que se fala é que a cantora não seria de fato uma usuária assídua da marca. Basta pesquisar os termos Anitta e Samsung na busca do Twitter para ver o que a associação dos termos produz:

Você pode ver de forma atualizada o que essa pesquisa gera em tempo real clicando neste link aqui. O assunto foi tema de uma matéria do portal Terra.

A empresa tem uma competente interna de Relações Públicas e que aparentemente consegue dar conta do recado. Recentemente a empresa trocou seu fornecedor externo de Assessoria de Imprensa e Relações públicos para um player com perfil mais fechado. Eu mesmo tentei uma reunião para tratar desses pontos apresentados aqui entre outros assuntos, mas o encontro foi cancelado aparentemente por “ocupação da sala da reunião para um assunto mais importante” e “falta de tempo por conta de fechamento de relatórios”, e eu entendo claro, afinal tudo é uma questão de prioridades. Mas trocando em miúdos: até tentei falar com a empresa, mas como você pode ver, sem sucesso.

Eu mesmo tenho me recusado a falar dos celulares de tela flexível da marca justamente por não ter nenhum acesso aos aparelhos para sequer fazer um hands on. Para falar do equipamento tenho que me contentar a receber os releases da marca e só ter de informação o lado bom da coisa. Nem sempre foi assim.

Resta saber o quanto que esses pequenos indícios apontados nesse artigo podem ditar os rumos da empresa nos próximos meses e como ela irá lidar com a entrada dos players chineses, a variação cambial e o cenário econômico gerado pelo Corona Vírus.

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