A dificuldade de ser um Blogueiro do Vale do Paraíba

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Este post pode parecer de choro. Poderia até ser. E poderia ser só meu choro mas é também de muita gente que não tem a mesma voz que eu tenho para chorar. Primeiro vamos a trilha sonora.

Eu estava voltando de Ribeirão Preto para o Vale do Paraíba por volta de 2008 e tinha um blog. Na verdade eu tinha um outro autoral chamado Clickzone e aí percebi que não tinha nada legal que falava sobre Jacareí e criei o blog ViaJacarei. Ele falava da cidade, dava dicas culturais, essas coisas e aí que eu mandei um mídia-kit do meu blog para uma agência local e um dos sócios da empresa disse que nunca tinha ouvido falar na vida dele alguma marca anunciar em blogs e foi aí que eu percebi que tinha realmente algo de estranho, muito estranho no ar.

O tempo passou e eu sempre de certa forma fui visto como o cara que fala umas coisas que são “viajantes”, que não são bem assim, e algumas vezes que sou louco. Neste caso sem aspas mesmo.

Coincidência ou não nos tempos dos quadrinhos da Turma da Mônica eu sempre gostei mesmo das Tirinhas que tinham o Louco na história. Normalmente eram roteiros sem pé nem cabeça, ou com textos literais ou com formatos que rompiam o espaço do quadradinho dos quadrinhos.

Também gostava da insanidade do Don Quixote a brigar com gigantes que eram na verdade moinhos de vento e lembro de ter lido mais de uma vez O Grande Mentecapto (do Fernando Sabino) que contava a saga do Viramundo e seu jeito digamos virado de ver o mundo.

E não posso esquecer ainda do livro Marcelo, Marmelo e Martelo (da Ruth Rocha). Marcelo era sábio em sua busca por entender quais eram as relações entre as palavras e os objetos. “Por que o martelo não chama marmelo?”. Sábia pergunta Marcelo, sábia pergunta.

Mesmo com essa boa referência bibliográfica eu me surpreendi quando minha empresa passou num programa de fomento a inovação chamado PRIME. De tempos em tempos tínhamos a auditoria de um simpático senhor cuja a idade deveria quase beirar a um século. Nós estávamos desenvolvendo uma plataforma de gestão de produção de conteúdo chamada Blahh. Por vários motivos que não vem ao caso agora o negócio não deu certo. Mas lembro como se fosse hoje a frase do auditor que quase nos reprovou dizendo:

Olha se vocês fabricassem berinjelas e vendessem berinjelas seria fácil auditar vocês, mas vocês fazem algo que não entendemos.

Confesso que isso me afligiu um pouco na época. Mas com o tempo as portas na cara e as vezes que fui chamado de louco foram fazendo sentido. Fizemos várias coisas inovadoras no interior, como por exemplo, um evento que viaja várias cidades para discutir marketing digital. Em algumas dessas cidades fomos a primeira iniciativa do tipo. Olha o louco chegando.

Mas hoje tenho claro e cristalino que se você apresentou sua ideia para alguém e você foi chamado de louco ou alguém não entendeu nada do seu projeto você tem algumas alternativas:

a) seu projeto é de fato ruim

b) seu projeto é de fato uma loucura

c) você de fato é louco e deveria estar fazendo tratamento

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d) pode ser que a sua ideia seja tão inovadora que não faz nenhum sentido. E neste caso isso é bom!

Só o tempo e talvez algum dinheiro perdido ou ganho vão dizer qual alternativa era correta e a menos que você esteja neste momento rasgando notas de R$ 10,00 não acho que a alternativa c) seja uma opção para você.

Os blogs a sua loucura

Mas vem daí que me vejo num buraco de minhoca unindo 2008 com 2015 e ainda vejo agências e anunciantes regionais se comportando como em 2007. Anunciar em blogs?

Olhando para trás acho até natural que o evento causasse estranheza mas nos dias de hoje sinto que não haja o menor sentido para isso. E o problema é regional porque se olharmos globalmente veremos que as grandes marcas estão deixando, por exemplo, celebridades de TV para apostar em celebridades digitais suas contas. McDonalds apostou em trigêmeas da internet sua campanha do McCafé.

E há aí um sério problema de que as empresas entendam o canal Youtube, blogs e Instagrams como novos veículos de comunicação. Não se trata de modinha – no caso do Youtube a coisa só vai se consolidar mais ainda, isso porque diz a lenda que em breve o Facebook irá investir pesado nessa briga.

Há ainda muitas dúvidas no mercado regional sobre a efetividade destas campanhas e até se elas funcionam de fato. Junte verba de mídia nessa fórmula e você verá realmente algo mágico que funciona.

Há sim desinformação e problemas em ambos os lados. A primeira coisa importante é dividir o influenciador que é profissional e que ganha dinheiro com este tipo de ação do hobbista. Normalmente alguém que escreve por prazer e vai em festas e ganha presentes para falar sobre eles e aí quem sabe ganhar mais presentes. Não é uma crítica cada um faz o que quer com o seu blog. Aqui há portanto uma constatação.

Há também empresas que ganham dinheiro em cima dos blogueiros que vão até um evento. Assim como os RP´s de eventos e festas vale uma agenda VIP, não tem muita mudança em relação ao modelo antigo. Assim a empresa ganha dinheiro, os blogueiros convidados ganham visibilidade e marca ganha exposição. Ok, isso funciona assim.

Assim há uma confusão natural entre o que trabalha com aquilo e o que curte aquilo. Frequentemente vejo expressões perplexas quando digo que cobro determinadas ações ou quando não recebo resposta depois que falo que vou mandar um mídia-kit com meus preços.

Mas há outro tipo de blogueiro/youtuber – o que ganha dinheiro com isso – este não pode pagar suas contas de supermercados com popularidade ou relevância. Ele trabalha duro, muitas vezes tem uma estrutura por trás e outras pessoas envolvidas na produção de conteúdo. É um eu-meio-mídia cuja finalidade é produzir bom conteúdo para leitores e eventualmente embarcar marcas nesse processo. É uma relação que sempre existiu em vários veículos e que agora aparece na internet.

Há ainda os blogueiros regionais que conseguem visibilidade nacional e são convidados por grandes marcas para participar de ações. E só assim é possível crescer, porque localmente não há verba publicitária que sustente o produtor de conteúdo digital. No caso do Vale do Paraíba até os portais regionais sofrem com esta conta, acredite.

Mas crescer nacionalmente te dá um problema que é perder sua identidade regional, ou pior deixar de atuar aqui que é o que normalmente acontece. É uma conta que não fecha.

Quem são os influenciadores digitais? O que comem? O que vestem? Hoje no Globo Repórter

Recentemente a Kefera do Canal 5 Minutos do Youtube esteve no Vale. Sem nenhuma mídia, sem que os grandes veículos se dessem conta ela esgotou duas sessões de teatro e se tivesse mais uma esgotaria também. Há blogueiros locais que tem mais páginas exibidas que jornais locais impressos e outros que começam a fazer barulho no Youtube e quem deveria observar este fenômeno não vê ou finge que não vê.

E por fim há um deslumbre natural dos jovens produtores que acham lindas as ações de marketing e publicidade por trás de seus ídolos digitais e sonham em um dia ser como eles, nem que isso lhe custe a chance de realmente ganhar dinheiro com a ação.

Mas como ganham dinheiro os blogueiros profissionais? Normalmente com ações de marketing e de comunicação de marcas que querem dialogar com as comunidades criadas por estes influenciadores. Uma citação de produtos por eles pode ter um efeito mais meteórico que um comercial de 30″ na maior audiência na maior emissora do país.

Num tá feliz? Muda pra São Paulo Armindo

Sim já ouvi isso também e me parece o mais lógico e talvez um dia eu possa fazer mesmo isso, mas por enquanto sou insistente e persistente. Não é por nada não, é porque eu acredito em tudo isso aqui e na região. Acredito na centena de jovens que não deveriam aprender ofícios para trabalhar na indústria, mas sim deveriam aprender a ganhar dinheiro com a internet, já que é ela/aqui que o futuro está.

E essa lógica gera um êxodo enorme de talentos locais. É um pensamento que eu quanto eu puder será combatido. E tem é claro algumas empresas a agências que começam a pensar de um jeito diferente. Já é um começo mas é muito pouco.

Então enquanto der eu prefiro ficar aqui gritando para o vento que é impossível que ninguém esteja vendo nem notando que a lógica do jogo mudou e que blogueiros e produtores de conteúdo digital podem dar retorno para marcas e empresas tanto quanto os veículos de comunicação.

Eu já ganho dinheiro com a internet há algum tempo, mas voltei recentemente com o meu blog (pra valer mesmo novamente estou desde fevereiro) e nesta volta optei por usar pouca publicidade no site como você pode observar e conto com o apoio de empresas que acreditam no meu trabalho e na sua relevância como meu leitor, mas é um trabalho de formiguinha ser o blogueiro do Vale do Paraíba. Eu já falei aqui sobre a Profissão Blogueiro e as dificuldades do setor.

E além do tradicional você é louco, eu convivo com as seguintes perguntas:

Armindo você ganha dinheiro só com o seu blog?

Ainda não.

Como os blogueiros profissionais ganham dinheiro?

Normalmente com ações de comunicação e publicidade. Eu faço também coberturas de eventos e consultoria para marcas.

Como funciona seu trabalho? 

Tá tudo explicadinho aqui embaixo

A Rede Postei!

E aí além de me atrever a cuidar do meu blog criei uma startup que ajuda outros influenciadores a crescer e ter resultados com o seu trabalho. Na Postei! levamos esse assunto a sério e tentamos a todo custo fazer com que nossos talentos sejam vistos e valorizados como tal.

Se já era uma loucura cuidar do meu imagina de vários. Pelo menos neste caso não estou sozinho, tenho outros blogueiros de sócios, tais como a Bruna Tau e Ticiane Toledo que entendem na pele essa dor diária de se provar como um veículo sério e que dá tanto retorno quanto qualquer outro veículo.

Já temos os primeiros resultados, mas acredite, a maioria deles fora da Região Metropolitana do Vale do Paraíba. Confesso que muitas vezes simplesmente não entra na minha cabeça saber que mais de 80% (estimativa minha) da verba publicitária regional vá para um único tipo de mídia que não é todo mundo mais que vê. E que quando dá o intervalo a pessoa vai pro celular.

Se a Postei! vai dar certo o tempo dirá, o fato é que a empresa que comecei tudo isso, a Cruz e Ferreira continua firme e prestes a fazer 8 anos agora em 2015. Eu já vi muita empresa abrir e fechar neste tempo que estamos de pé e eu realmente me orgulho dessa história. Não tivemos só acertos mas temos boas coisas para contar e aprendemos muito, muito mesmo.

É por estas e outras que muita gente se refere a mim como pioneiro no interior de SP ou desbravador. Já fui chamado de quebrador de pedras, bandeirante digital. Também já fui considerado pelo Scup  uma das 50 pessoas mais influentes do cenário digital.  Já fui também palestrante da Campus Party e usado como referência em dezenas de reportagens de veículos regionais e até nacionais.

O Blogueiro do Vale

E mesmo assim tem marcas locais que não olham para isso, imagine o jovem talento local que escreve bem, tem um bom conteúdo (muitas vezes muuuuito melhor que o meu) e não tem a mesma visibilidade que eu tenho. Ser Blogueiro do Vale do Paraíba não é fácil mas desafio aceito. Vamos ver onde vai dar.

O Blogueiro do Vale? Desafio Aceito
 

Tem alguma coisa de errado nisso, ou não?

Se você também é produtor de conteúdo e sofre com a mesma indiferença do seu mercado compartilhe aí embaixo suas dificuldades. Sua contribuição vai me ajudar a fazer um novo post sobre o tema.

#facepalm
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Sem comentários
  1. Sah Diz

    É difícil ser blogueiro em vários locais, e situações. Tento entrar nessa “blogosfera” há 3 anos e são muitas portas que se fecham pois existe o fator, status, competitividade e falta de experiencia. Costumo seguir com o blog como uma ferramenta muito séria e tento abordar da melhor maneira que posso em cima dele. Hoje tenho o triplo de seguidores de quando comecei, mas de nada adiantou, tive que percorrer mais outros meios para que essa “blogosfera” me escutasse. Muitas empresas me perguntam por que não sou como blogueiras conhecidas, que postam mais looks e fazem mais resenhas ao invés de tentar mesclar tantos assuntos. E minha resposta é sempre essa “meu blog é sobre minha visão critica e de fã sobre os assuntos que nos cercam, sendo assim eu formulo opinião”… e já me disseram varias vezes que sou doida, e não tenho o que há de cool para entrar em muitas parcerias e propostas que outras garotas entram.
    Mas sei que estou no caminho certo, mesmo tomando com muitos não e sem quase ajuda externa vou seguindo e vejo o quanto cresço. É assim que a gente mede sucesso né? Pelo menos para mim é.
    Abraços.
    Sarah Campos

    1. Armindo Ferreira Diz

      Sah que relato maravilhoso. E é como eu disse no texto, ser chamada de doida, pode indicar que você esteja no caminho certo. Obrigado pela leitura e pelo belo comentário 😀

  2. Anna Carla Diz

    Olha Armindo, só muda o endereço.
    O Cadeno de Cabeceira existe desde 2006 e fazem 3 anos que decidi profissionalizar.
    No último ano meu blog deu um salto espantoso, graças a muito trabalho e dedicação. Tanto que o número de seguidores aumentou significativamente, e número de acessos aumentou seis vezes em relação ao ano passado. É um público legal, que interage sabe? É isso me leva a crer que estou no caminho certo.
    Contudo, ainda assim, é bastante difícil fazer com que o mercado te enxergue como uma fonte de divulgação de produtos. Minto, algumas marcas te enxergam, mas como consumidor e acham que te convidar para um evento e der um brinde está ok. Mas não está ok.
    Muitas vezes tenho que me cercar de toda uma infra-estrutura para comparecer a um evento, sou mãe, trabalho como advogada e tenho que deixar estas duas funções calçadas para comparecer a um evento, e sem uma remuneração ou algo que compense fica difícil pagar uma babá por exemplo. Infelizmente já declinei muitos eventos por isso.
    Mas não desisto tão cedo porque gosto de blogar e se eu puder ganhar dinheiro fazendo o que eu gosto vai ser maravilhoso!
    Em tempo: adorei seu texto e notei uma mudança bem legal na sua abordagem, mas descontraída e pessoal, aprovadíssimo !
    Abraço !

    1. Armindo Ferreira Diz

      Anna obrigado por compartilhar de forma tão rica sua vivência. E que legal ter notado a mudança no estilo, tem sido um desafio pessoal, muito interessante.

  3. Cristiano Pereira (Kilê) Diz

    É realmente muito difícil o caminho daqueles que querem seguir pelo Digital no Vale do Paraíba. Não tenho blog ainda (apesar de ser um dos projetos que guardo para o futuro não tão distante), mas já tive e (e ainda tenho) projetos de com abordagem regional.
    O primeiro que tive foi o site Balada360. Ele basicamente era um site de divulgação da agenda de eventos regionais e também de coberturas fotográficas. Obtivemos um certo êxito com acessos dos frequentadores destes lugares, que nos visitavam para conferir suas fotos. Porém, o nosso alvo, era que não apenas os frequentadores acessassem, como os donos de casas vissem nosso site como um canal efetivo de divulgação aos seus frequentadores, como também todos os comerciantes no entorno destas casas também poderiam atrair para si, estes potenciais clientes que fazem “esquenta” antes de ir pra balada, comem um lanche depois da festa, ou mesmo por causa da lei seca, procuram taxi para irem pra casa.
    Para minha surpresa, todos olharam a iniciativa como inútil, pois, quem tentou fazer algo parecido no passado, sempre trabalhou em troca de “combos” de bebida. E como a divulgação não havia funcionado, eles então julgaram que este tipo de canal não era funcional.
    Resultado foi que depois de quase 2 anos tentando, tivemos de encerrar as atividades do site.
    A verdade é que o Vale do Paraíba, ainda é muito “provinciano”, e que apesar de começar a se habituar com a internet agora (principalmente os jovens), ainda sofre de uma visão deturbada de que, a maioria do público é offline, de mídia impressa. Empresas daqui querem divulgar pra gente que é daqui. Quando se fala da possibilidade de vender ou atender fora daqui, temem a concorrência com São Paulo e resolvem não arriscar.
    Armindo, admiro esta sua insistência em continuar tentando. Qualquer um poderia desistir, principalmente você, que já é reconhecido fora aqui da região, mas ainda sim persiste.
    Eu também continuo acreditando aqui na região e no potencial da internet do Vale, e de potenciais empresas, portais e personalidades que podem despontar daqui para o mundo.
    Temos uma pedra bruta, que muita gente por não conhecer, tenta desmotivar a exploração (a mente provinciana de uma cidade industrial ainda prevalece…).
    Mas pretendo acreditar, manter as esperanças e continuar a lapidar.
    Um dia uma bela joia de grande valor será exposta, e aqueles que não acreditaram hoje, se queixarão de não terem tido “oportunidade” no começo.
    Belo post Armindo!

    1. Armindo Ferreira Diz

      Kilê o seu comentário vale por um post e com detalhes que me fizeram pensar que valeu a pena escrever o texto. Obrigado por compartilhar a história e obrigado por acompanhar o blog. abraços

  4. Eduardo Costa Diz

    É difícil tudo que envolve ser digital no Vale: seja blogueiro, agênci digital, produtor digital, social media, vlogger, veículo digital, etc.
    Mas, este é um caminho sem volta.
    Juntos somos mais fortes e gritamos mais alto.
    Essa é a função dos avengelizadores: pavimentar a estrada dos que vem na sequência.
    Mesmo difícil, é bem melhor sermos condutores da história do que conduzidos por ela.

    1. Armindo Ferreira Diz

      Eduuu.,
      Bom ver mais gente se juntando aos gritos, já que só falar não tá funcionando!

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