Pude participar de um encontro virtual com a imprensa para conferir detalhes do estudo “BR Cyber Threat Landscape”, da Bitsight, apresentado pela JC2SEC. O levantamento, que cobre setembro de 2025 a agosto de 2026, aponta que o país tem maturidade cibernética intermediária: supera algumas economias em setores específicos, mas permanece abaixo da América do Norte e da Europa em todos os oito setores analisados.
Ameaças em destaque.
Entre os setores mais visados estão governo, telecomunicações, saúde, financeiro e fintech, energia e recursos, e transporte. Nove ministérios federais foram atingidos pelo ransomware Fog. Na saúde, ataques de ransomware afetam clínicas, laboratórios, hospitais e fornecedores de tecnologia. No setor financeiro, 61 bancos brasileiros tiveram clientes como alvos do trojan Coyote, e fraudes no ecossistema do Pix seguem como risco relevante. Em energia, o grupo Everest alegou ter acessado dados sensíveis de uma grande empresa brasileira de óleo e gás, aparentemente por meio de um fornecedor de serviços sísmicos. Telecomunicações enfrentam espionagem de tráfego e botnets de TV boxes.
Vulnerabilidades e malware
As principais vulnerabilidades observadas estão ligadas ao Apache HTTP Server. A CVE-2026-49975 aparece em 32,2% dos IPs analisados. Entre os malwares mais prevalentes estão RootSTV (71,6%), Vo1d (51,6%), ProxyServices (6,8%), TopTools (4,2%) e BadboxLoader (2,3%). O estudo alerta que malwares como VoId, Badbox e RootSTV transformam TV-boxes e dispositivos Android comprometidos em pontos de acesso para criminosos, usando a conexão residencial da vítima para ocultar a origem de fraudes e ataques.
Raio-X por setor
No setor de telecomunicações foram observados 2,23 milhões de vulnerabilidades, 1,65 milhão de infecções e 71 mil portas abertas. O governo registra 870 mil vulnerabilidades, 645 infecções e 4.423 portas abertas. O setor financeiro soma 561 mil vulnerabilidades, 219 mil infecções e 14 mil portas abertas. A saúde tem 46 mil vulnerabilidades, 70 infecções e 841 portas abertas. Transporte e energia também aparecem expostos, com destaque para a atuação de grupos de ransomware industrial e vazamentos em cadeias de terceiros.
Comparação internacional
No G20, o Brasil fica abaixo de Alemanha, Estados Unidos, Japão e Índia nos setores analisados. A diferença média é de 25 pontos em relação à América do Norte e de 16 pontos frente à Europa. A maior distância ocorre em serviços financeiros, com 30 pontos atrás de ambas as regiões. A menor diferença é na saúde, 10 pontos atrás.
Diligência técnica
Na comparação com a América Latina, o Brasil vai melhor em TLS/SSL Configurations (670 contra 610), TLS/SSL Certificates (670 contra 610), Open Ports (650 contra 630), Web Application Headers (590 contra 520) e Server Software (670 contra 640). Em Insecure Systems, há empate em 550. Em sistemas comprometidos, porém, o país tem nota 350 em Botnet Infections, abaixo da média latino-americana (440), e 530 em Unsolicited Communications, também abaixo da média regional (580).
O estudo conclui que o Brasil não tem falta de visibilidade sobre o risco cibernético, mas precisa transformar sinais em prioridades e prioridades em ação. Saúde apresenta o melhor desempenho relativo, enquanto financeiro, serviços, indústria, educação e telecomunicações concentram as maiores oportunidades de evolução.




