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Coursera e Udemy apresentam Helix, plataforma de IA que quer transformar cursos em habilidades comprovadas.

Anúncio foi feito durante o FWD São Paulo, que reuniu executivos de empresas, educação e treinamento corporativo para discutir como preparar a força de trabalho para a era da inteligência artificial

Anúncio foi feito durante o FWD São Paulo, que reuniu executivos de empresas, educação e treinamento corporativo para discutir como preparar a força de trabalho para a era da inteligência artificial
crédito: Armindo Ferreira.

São Paulo recebeu nesta semana o FWD, evento da Coursera voltado ao mercado de treinamento corporativo e desenvolvimento da força de trabalho. Ao longo da programação, executivos da empresa, clientes, representantes de instituições de ensino e convidados discutiram como a inteligência artificial está alterando as competências exigidas pelo mercado e o que empresas e profissionais precisam fazer para acompanhar essa transformação.

Entre palestras, painéis e demonstrações de novas soluções, um dos principais anúncios foi o Project Helix, nova plataforma de aprendizagem baseada em inteligência artificial que está sendo desenvolvida pela Coursera após a combinação com a Udemy. A proposta é ir além do modelo tradicional de educação corporativa, no qual o principal indicador costuma ser a conclusão de cursos, para criar um sistema capaz de identificar lacunas de competências, personalizar o aprendizado, avaliar a aplicação prática e registrar evidências das habilidades desenvolvidas.

A dimensão do desafio foi apresentada logo na abertura do evento. Segundo dados citados por André durante sua apresentação, 3,7 bilhões de pessoas precisam ser requalificadas globalmente, enquanto mais 1 bilhão de pessoas deverão ingressar no mercado de trabalho nos próximos quatro anos em um cenário de mudanças aceleradas pela tecnologia.

O executivo também apresentou diferentes cenários projetados pela KPMG para o mercado de trabalho americano até 2050. Em um cenário de adoção rápida da inteligência artificial, acompanhada de aprimoramento e desenvolvimento de pessoas, a tecnologia poderia estar associada à criação de mais de 8 milhões de empregos nos Estados Unidos. Em um cenário de adoção mais lenta, o número citado foi superior a 5 milhões. Já uma adoção rápida da IA sem o correspondente desenvolvimento de pessoas poderia resultar em um déficit de aproximadamente 1 milhão de empregos, segundo os dados apresentados.

O argumento central levado ao palco foi que a transformação provocada pela IA não será resolvida apenas com infraestrutura tecnológica. André também citou dados segundo os quais mais de 40% das empresas se consideram preparadas do ponto de vista tecnológico, enquanto apenas 20% dizem estar preparadas em relação a talento. Ele ainda apresentou a chamada “regra dos 70”, atribuída à BCG, segundo a qual organizações que obtêm mais valor com IA concentram 70% do foco estratégico em pessoas e processos, 20% em tecnologia e 10% em algoritmos.

É nesse contexto que surge o projeto Helix.

crédito foto: Armindo Ferreira

Da conclusão de cursos à comprovação de habilidades.

Apresentada como uma plataforma AI-native, a Helix pretende conectar objetivos de negócio, inteligência sobre habilidades, aprendizagem personalizada, prática e comprovação de competências. A ideia é que líderes e profissionais possam descrever seus objetivos em linguagem natural e, a partir disso, receber caminhos de aprendizagem adaptados ao perfil, à função e ao nível de conhecimento de cada pessoa.

A plataforma deverá combinar conteúdos provenientes do ecossistema da Coursera e da Udemy com informações sobre as competências existentes dentro das organizações. O sistema poderá considerar dados da própria empresa e sinais do mercado de trabalho para identificar quais habilidades são necessárias e quais lacunas precisam ser preenchidas.

A diferença em relação ao adaptive learning tradicional está justamente na tentativa de começar pelo problema de negócio, e não pelo conteúdo.

“Começamos analisando uma prioridade estratégica do negócio: que problema vamos resolver?”, explicou André Almeida, vice-presidente da Udemy para a América Latina, em entrevista ao Blog do Armindo. Segundo ele, a ferramenta poderá interagir com a organização e se conectar a sistemas de Human Capital Management (HCM) para identificar habilidades já dominadas e lacunas de aprendizagem.

A partir dessas informações, a proposta é criar uma trilha personalizada conectada ao objetivo da empresa, combinando conteúdos, laboratórios e simulações de situações profissionais. “É muito mais do que um adaptive learning, pois estamos reimaginando o processo de aprendizagem desde o zero”, afirmou o executivo.

Outro elemento considerado fundamental pela empresa é a comprovação do domínio das competências. A Helix deverá combinar avaliações contínuas, observação prática, credenciais reconhecidas e recursos como os Graded Role Plays e Graded Labs.

Nos Role Plays, por exemplo, o profissional pode ser colocado diante de uma situação simulada, como uma negociação, e interagir com uma persona de inteligência artificial. O desempenho é avaliado de acordo com critérios definidos previamente. Nos Graded Labs, a ideia é avaliar habilidades técnicas em ambientes práticos e controlados, como um desenvolvedor realizando uma tarefa em um ambiente de programação.

A proposta é substituir uma pergunta relativamente simples : “o funcionário concluiu o treinamento?”,  por uma questão mais complexa e relevante para as empresas: “ele consegue aplicar a habilidade que precisava desenvolver?”

Uma nova plataforma, mas sem abandonar Coursera e Udemy.

A chegada da Helix não significa, pelo menos neste momento, o desaparecimento das plataformas atuais.

André Almeida afirma que Coursera e Udemy continuam coexistindo e recebendo investimentos. Para clientes que já possuem contratos com a Udemy, por exemplo, a combinação das empresas não altera automaticamente os acordos existentes. “Quem tem contrato com a Udemy continua tendo, sem qualquer alteração”, afirmou. A Helix será uma nova oferta, e não uma combinação automática dos dois serviços atuais. Segundo Almeida, ainda não há informações comerciais disponíveis sobre a nova plataforma.

A empresa prevê que o Project Helix esteja amplamente disponível para clientes corporativos no primeiro semestre de 2027. Enquanto isso, Coursera e Udemy continuam adicionando recursos de inteligência artificial às plataformas existentes. 

O que Coursera e Udemy querem combinar?

A estratégia por trás da combinação das empresas também apareceu nas entrevistas realizadas durante o FWD. Para Dorota Zawistowska, responsável pela área empresarial da Coursera na América Latina, a união representa a tentativa de combinar duas empresas que tinham missões semelhantes, mas características diferentes.

A Coursera nasceu ligada ao modelo de MOOCs, baseado na distribuição de um mesmo conteúdo para grandes públicos. A Udemy, por outro lado, desenvolveu um marketplace com uma grande comunidade de instrutores independentes. A executiva afirma que a nova estratégia busca sair do modelo de simples consumo de conteúdo e avançar para o desenvolvimento de habilidades.

A combinação também tem características diferentes na América Latina. Segundo Dorota, a Udemy possui atualmente uma presença maior no Brasil, enquanto a Coursera tem uma atuação mais forte em universidades e governo na região. “Temos que jogar no longo prazo”, afirmou a executiva. A estratégia, segundo ela, é combinar os pontos fortes das duas empresas em uma plataforma única.

O ecossistema combinado anunciado durante o evento reúne mais de 300 milhões de alunos e 12 mil clientes corporativos e institucionais. No Brasil, a Coursera afirma ter 18 milhões de alunos e mais de 380 clientes enterprise. Do lado da produção de conteúdo, a Udemy reúne cerca de 100 mil instrutores. Já a Coursera trabalha com universidades e empresas como Stanford, Harvard Business School, Yale, Amazon, Google, Microsoft e Anthropic.

Para Almeida, essa combinação também pode acelerar a resposta às mudanças tecnológicas. Ele cita como exemplo o surgimento de novos modelos de IA: quando uma nova tecnologia chega ao mercado, instrutores da Udemy podem produzir treinamentos sobre ela rapidamente.

IA não significa apenas habilidades técnicas.

A discussão durante o FWD também mostrou que a preparação para a era da IA não está limitada à formação técnica.

Segundo Dorota, competências como cibersegurança, ciência de dados e inteligência artificial generativa estão entre as áreas que apresentam demanda crescente. Ao mesmo tempo, habilidades humanas continuam sendo importantes para profissionais que precisam trabalhar em equipes, comunicar conceitos complexos, pensar criticamente e lidar com mudanças.

Essa combinação também aparece nos dados apresentados durante o evento. No Brasil, segundo números da Coursera, há atualmente uma nova inscrição em cursos de IA generativa a cada quatro minutos. Globalmente, são aproximadamente 64 mil inscrições por dia.

A procura por cursos de IA agêntica, de acordo com os dados apresentados pela empresa, cresceu mais de 4.000%. O movimento acontece ao mesmo tempo em que cresce a procura por microcredenciais (certificações de curta duração que atestam que uma pessoa adquiriu competências, conhecimentos ou habilidades específicas). A empresa afirma que a demanda por esse tipo de formação aumentou 33%, enquanto o catálogo cresceu 90%.

A lógica é que profissionais e empregadores possam ter evidências mais específicas sobre determinadas competências, em vez de dependerem exclusivamente de diplomas ou da conclusão de programas extensos.

Empresas e universidades diante da mudança.

O debate não ficou restrito às plataformas. Um dos painéis do FWD, intitulado “Construindo a Prontidão da Força de Trabalho na Era da IA”, reuniu representantes da ELO, Stefanini, FMU e FIAM-FAAM e Yamaha Brasil, além de Patricia Leka, diretora regional de Enterprise Sales da Coursera para a América Latina.

crédito foto: Armindo Ferreira

A composição colocou lado a lado empresas que precisam preparar suas equipes e uma instituição de ensino responsável pela formação de novos profissionais. Essa diferença de perspectiva é importante porque a mudança nas competências começa antes da contratação. Universidades precisam preparar estudantes para funções que podem sofrer alterações significativas até o momento da formatura, enquanto as empresas precisam atualizar continuamente profissionais que já estão no mercado.

O próprio evento apresentou exemplos de organizações que vêm utilizando programas de capacitação para atacar esse problema. Entre os casos citados estavam Stefanini, O Boticário, LATAM, Yamaha Brasil, Governo do Espírito Santo e UNAD, na Colômbia.

Segundo dados apresentados pela Coursera, a INC, no Brasil, capacitou 80% do público-alvo em inteligência artificial em menos de seis meses, reduziu o tempo de determinados processos de cinco horas para 80 minutos e registrou aumento de 40% na eficiência operacional.

O Governo do Espírito Santo, também segundo a empresa, registrou mais de 82 mil matrículas em 31 programas de capacitação voltados a cidadãos e servidores. Na Colômbia, a UNAD teria alcançado mais de 116 mil alunos por meio de 140 certificações integradas.

A preparação para a IA também passa pelo comportamento.

crédito foto: Armindo Ferreira

No encerramento do evento, a discussão ganhou uma perspectiva menos corporativa e mais humana com a participação da atriz, autora e palestrante Danni Suzuki. Em entrevista após sua palestra, Danni falou sobre o medo provocado pela velocidade com que a inteligência artificial está avançando e sobre a necessidade de desenvolver capacidades que vão além do domínio de ferramentas.

Para ela, a capacidade de adaptação e a disposição para aprender continuamente serão cada vez mais importantes. A atriz também defendeu o desenvolvimento de habilidades relacionadas à comunicação, conexão e compreensão do outro. Em sua palestra, apresentou cinco conceitos que considera importantes para esse momento: identidade, reconexão, sintonia, entrelaçamento e servir.

“Eu acho que o grande medo que a gente tem das máquinas está se espelhando na postura humana. Então, o medo que a gente tem que sentir é o de perder a nossa própria humanidade”, afirmou.

A reflexão dialoga com o próprio título do livro lançado por Danni, Humanos do Futuro: Por que a revolução tecnológica exige uma revolução humana.

reprodução internet. 

No fim, a discussão apresentada no FWD aponta para uma transformação que vai além da plataforma anunciada. Se Helix representa a tentativa de usar inteligência artificial para identificar lacunas, personalizar o aprendizado e comprovar competências, o debate que permeou o evento mostra que a preparação para esse novo mercado não se resume à tecnologia.

A questão passa a ser como combinar inteligência artificial, conhecimento técnico e habilidades humanas em um momento em que a velocidade das mudanças já desafia o modelo tradicional de formação profissional.

Armindo Ferreira

News Influenciador

É jornalista com uma carreira sólida de mais de 22 anos na área – tendo passado pela TV Globo e SBT. Foi ainda finalista de um prêmio Esso e vencedor de um prêmio Unimed de Jornalismo. Hoje cobre três editorias: tecnologia, negócios e marcas. Há mais de 15 anos criou o Blog do Armindo para falar dos assuntos que gosta…