O fascínio pelos robôs atravessa gerações. Das histórias imaginadas por Isaac Asimov em “Eu, Robô” às paisagens tecnológicas de produções mais recentes, como “The Electric State”, a ideia de máquinas convivendo e trabalhando ao lado dos humanos continua alimentando o imaginário sobre o futuro.
E eu não excluo disso. Nunca perco uma briga de robôs ou a oportunidade de ter experiências com eles, e foi por isso que fiquei empolgado com o convite para conhecer a unidade da ABB Robotics em Sorocaba (interior de São Paulo). O futuro tem uma aparência bem diferente daquela dos filmes.
E nada de robôs humanoides dançando ou fazendo performances para vídeos nas redes sociais. Aqui é força bruta da automação industrial: grandes braços robóticos, capazes de executar tarefas repetitivas e de precisão em ambientes produtivos, alguns equipamentos que podem pesar toneladas e sistemas desenvolvidos para trabalhar em fábricas de diferentes setores.

Logo na entrada da empresa, somos recepcionados pela primeira unidade, fabricada pela empresa. Uma espécie de avô dos equipamentos que veríamos a seguir.
É nesse contexto que a ABB Robotics, uma das empresas líderes mundiais em robótica, apresenta parte do ecossistema de soluções que sustenta sua atuação no país. Na unidade de Sorocaba, a companhia mantém um Centro de Treinamento integrado a uma estrutura que inclui oficina de robótica, showroom, áreas de montagem e testes de células robotizadas, armazém e escritório comercial, funcionando como ponto de conexão entre tecnologia global, aplicação local, serviços especializados e capacitação técnica.
O espaço já capacitou mais de 1.000 profissionais em seus três primeiros anos de operação. A estrutura foi projetada para simular aplicações reais da indústria, apoiar treinamentos técnicos, desenvolver projetos de robótica, executar serviços de manutenção e aproximar clientes, integradores, técnicos e engenheiros das tecnologias que vêm transformando plantas industriais em diferentes setores.
A visita também ajuda a entender que a robótica industrial vai muito além do equipamento que chega ao chão de fábrica. Por trás de cada aplicação há projeto, testes, programação, simulação, manutenção e profissionais preparados para integrar diferentes tecnologias.
No portfólio da ABB Robotics, há robôs industriais, robôs colaborativos, robôs móveis autônomos, softwares de simulação e programação, soluções de robótica e automação de máquinas, serviços especializados, treinamento técnico e suporte ao ciclo de vida dos equipamentos. A combinação dessas frentes reforça a mudança na forma como a indústria passa a enxergar a robótica: não apenas como equipamento, mas como parte de uma arquitetura integrada de produtividade, dados, segurança, qualificação e inteligência aplicada à operação.
Dos robôs reformados à capacitação técnica.

O primeiro contato com a estrutura da ABB em Sorocaba foi justamente com um lado menos visível da robótica. Na área operacional, havia equipamentos passando por processos de reforma, enquanto outro robô estava desmontado e era utilizado como ferramenta de treinamento.
A cena ajuda a mostrar que a vida de um robô industrial não começa e termina na venda. Os equipamentos precisam ser mantidos, atualizados e, em muitos casos, estudados por técnicos e engenheiros responsáveis por garantir sua operação.
Segundo Rodrigo Bueno, diretor da ABB Robotics para o Cluster South America, a unidade brasileira faz parte de uma estrutura maior da companhia e atende projetos em toda a América do Sul. Com aproximadamente 5 mil metros quadrados, a operação trabalha com clientes de setores como o automotivo e outras indústrias, além de oferecer assistência técnica. Os equipamentos utilizados nas soluções podem vir de fábricas globais da ABB na China, Suécia e Estados Unidos e passam, no Brasil, por etapas de desenvolvimento, testes e comissionamento antes da entrega aos clientes. A estrutura também atende projetos destinados a países como Argentina e Chile.
Na prática, Sorocaba funciona como um hub entre a tecnologia desenvolvida globalmente pela ABB e sua aplicação em projetos locais e regionais.
Depois da área de manutenção, a visita seguiu para o Centro de Treinamento. Ali, robôs menores são utilizados para capacitar profissionais e demonstrar diferentes aplicações. Entre os equipamentos apresentados estava um robô com formato que lembra uma aranha, utilizado para movimentar peças.

Eu pude inclusive operar um dos robozinhos, com movimentos simples, é claro, mas a facilidade de operação me chamou a atenção. Será que eu levaria jeito para trabalhar nessa área?
A demonstração reforça um dos principais desafios da expansão da robótica no Brasil: não basta instalar máquinas. É preciso formar pessoas capazes de programá-las, operá-las, mantê-las e integrá-las a processos produtivos cada vez mais complexos. E a ABB sabe disso como ninguém.
Enquanto íamos caminhando pela planta, parei para observar um grupo de profissionais aprendendo a desmontar um robô e me fez pensar que, mesmo com toda essa tecnologia de ponta, os humanos têm um papel central nessa evolução.
Há uma preocupação clara aqui com o meio ambiente, com práticas de economia circular. Em vez de simplesmente condenar um equipamento desses, a empresa consegue avaliar e até dar uma sobrevida ao aparelho. Peças trocadas ou que não têm mais salvação vão para o descarte correto.
O Brasil ainda tem espaço para automatizar muito mais.
Esse desafio fica ainda mais evidente quando o Brasil é colocado em perspectiva internacional.
Um dos indicadores utilizados para medir o grau de automação de um país é a densidade de robôs, calculada pelo número de robôs industriais em operação para cada 10 mil trabalhadores da indústria de transformação. Os dados mais recentes divulgados pela International Federation of Robotics mostram uma enorme distância entre as economias mais automatizadas e mercados que ainda têm amplo espaço para avançar. Em 2024, a Coreia do Sul liderava o ranking, com 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores da indústria, seguida por Singapura, com 818. Alemanha tinha 449 e Japão, 446. A média global era de 132 robôs. É bom aqui destacar que, numericamente, a China é o país com mais unidades de robôs ativos, mas, quando se aplica a densidade por trabalhadores, é a Coreia do Sul que lidera o ranking. De acordo com o site especializado Robo Radar 24, o Brasil ocupa, numa escala global, o 41.º lugar.
A comparação ajuda a contextualizar o estágio de automação brasileiro. Embora o país tenha uma indústria diversificada e setores com alto nível tecnológico, a presença de robôs ainda está distante dos principais polos globais de automação. Mais do que uma simples corrida tecnológica, esse cenário também está relacionado à estrutura e ao grau de industrialização de cada economia, ao perfil dos setores produtivos e à capacidade de investimento em modernização.
É justamente nesse contexto que empresas como a ABB enxergam espaço para ampliar a presença da robótica no país. Para eles, o avanço da robótica no Brasil depende da combinação entre tecnologia, serviços, capacitação técnica e visão de ciclo de vida. A robótica tende a ganhar espaço não apenas em grandes linhas produtivas, como também em aplicações mais flexíveis, operações de médio porte e ambientes que exigem maior capacidade de adaptação.

O futuro da automação está no showroom.
Se as primeiras áreas da visita mostravam os bastidores e a capacitação necessária para manter a robótica funcionando, o showroom foi o momento em que a experiência começou a apontar para o futuro.
Ali, diferentes demonstrações reuniam robôs trabalhando de forma integrada, aplicações que utilizam recursos de inteligência artificial e sistemas capazes de combinar automação, sensores e visão para executar tarefas. Esse robô da imagem abaixo usa câmeras, imagem computacional e inteligência artificial para identificar os elementos da produção.

Também foi possível conhecer aplicações que levam o desenvolvimento dos projetos para o ambiente virtual. Com o uso de realidade virtual e gêmeos digitais, engenheiros podem testar soluções antes de sua implantação física, simulando o funcionamento de uma célula robotizada e identificando possíveis ajustes ainda no ambiente digital.
Bueno explica que essa transformação já mudou a forma como os projetos são desenvolvidos. Segundo ele, a empresa deixou de trabalhar basicamente com desenhos em 2D e passou a desenvolver as soluções diretamente em 3D, utilizando modelos digitais para apresentar e validar projetos antes do comissionamento físico. Dependendo da aplicação e do nível de preparação virtual, o processo também pode reduzir significativamente o tempo necessário para colocar uma célula em funcionamento no cliente.

A ideia é simples de explicar, embora complexa de executar: quanto mais um projeto puder ser testado no mundo virtual, menor tende a ser a necessidade de ajustes depois que os equipamentos chegam à fábrica.
Em meio a braços industriais, sistemas de visão e ambientes digitais, uma das demonstrações mais simpáticas do showroom mostrava outra possibilidade para a robótica: uma simpática robô chamada Yumi, encarregada de servir café, acompanhado de um chocolatinho. Uma pausa mais leve em uma visita dominada por máquinas gigantes e processos industriais.

Orgulho dos talentos brasileiros na robótica.
Durante toda a visita à fábrica, fomos acompanhados pelos especialistas da ABB, que mostravam cada detalhe da operação. Ao final do evento, tivemos um momento para perguntas e respostas com os executivos e um momento de entrevista em que pude falar com o Rodrigo Bueno.
Em todos esses momentos, pude notar um brilho no olhar ao falar de tudo que é feito na planta de Sorocaba. E confesso que senti o mesmo orgulho em saber que aqui no país temos profissionais altamente especializados numa área complexa e que não deixam nada a desejar a outros países. Que o leitor saiba que, por trás de cada robô numa linha de produção, há um trabalhador brasileiro altamente especializado e orgulhoso do que é feito aqui.
IA começa a dar mais autonomia aos robôs.
A inteligência artificial é uma das tecnologias que devem acelerar essa próxima etapa da robótica. Uma das grandes evoluções nesse sentido é a chamada IA física, que conecta robôs, softwares, simulação, dados e inteligência artificial para acelerar o desenvolvimento, o teste e a implementação de aplicações industriais. Para a ABB Robotics, a evolução da robótica passa pela capacidade de aproximar ambientes virtuais e operações reais, permitindo que fabricantes simulem processos, validem soluções e preparem sistemas robotizados com maior precisão antes da implantação em campo.
Um dos exemplos recentes dessa evolução é a linha PoWa™, nova geração de cobots de alta velocidade apresentada globalmente pela ABB Robotics em 2026. A família foi desenvolvida para aplicações que exigem velocidade, capacidade de carga, flexibilidade e implementação simplificada, ampliando as possibilidades de uso de robótica colaborativa em diferentes ambientes produtivos e fora das áreas fabris, como laboratórios e setor de serviços, por exemplo.
“Os cobots ganharam relevância porque aproximam a robótica de novas realidades industriais e não industriais. No Brasil, muitas empresas já identificaram onde poderiam ganhar produtividade, e ainda enfrentam barreiras práticas para iniciar essa jornada. Soluções como a linha PoWa™ ajudam a ampliar esse acesso, combinando desempenho industrial, programação simplificada e flexibilidade para diferentes aplicações”, explica Adrian Covi, Gerente da Linha de Negócios Industries na ABB Robotics América do Sul.
Cobots são robôs colaborativos, projetados para trabalhar lado a lado com humanos no mesmo espaço, sem as grades de proteção que isolam os robôs industriais tradicionais.
A diferença central está na segurança. Um robô industrial clássico é rápido, pesado e cego ao ambiente ao redor, então precisa ficar enjaulado, longe de qualquer pessoa. O cobot inverte essa lógica: tem sensores de força e torque que fazem o braço parar ou desacelerar assim que encosta em algo inesperado, e roda em velocidades mais baixas justamente para permitir esse contato próximo com o operador humano.
Já o Bueno explica que a indústria vive atualmente uma fase de transição. A digitalização abriu espaço para sistemas conectados e para equipamentos com recursos de visão. Agora, a combinação dessas tecnologias com a inteligência artificial pode ampliar a capacidade dos robôs de interpretar situações e tomar decisões.
“Dizer que está pronto? Não”, afirmou durante a entrevista comigo, ao descrever um cenário que ainda está em evolução. Segundo ele, os sistemas de visão avançam rapidamente e, conectados à IA, devem ampliar a autonomia dos robôs nos próximos anos. Ao mesmo tempo, esse processo exige atenção a fatores como cibersegurança e segurança dos trabalhadores que dividem o ambiente com as máquinas.
Essa é uma das diferenças entre o robô industrial de décadas atrás e os sistemas que começam a ganhar espaço agora. Não se trata apenas de repetir um movimento programado. A evolução passa pela capacidade de perceber o ambiente, processar informações e reagir a diferentes situações dentro dos limites definidos para a operação.
E os robôs humanoides?
É difícil falar sobre o futuro da robótica sem mencionar os humanoides. Eles se tornaram os queridinhos da tecnologia, aparecem constantemente em demonstrações e ajudam a alimentar o imaginário de máquinas cada vez mais parecidas com pessoas.
Mas a ABB, ao menos neste momento, decidiu seguir outro caminho.
Segundo Bueno, a empresa está concentrando seus esforços em sistemas que chama de AVR, sigla para Autonomous Versatile Robotics, ou robótica autônoma versátil. Em vez de pernas, essas máquinas utilizam rodas para se deslocar e podem executar tarefas em ambientes industriais com uma tecnologia que, segundo a avaliação da empresa, já está mais madura para aplicação.

A lógica é pragmática. Para fazer um humanoide se movimentar sobre duas pernas, é necessário resolver desafios complexos relacionados ao equilíbrio e à locomoção. Em muitas aplicações industriais, porém, um sistema autônomo sobre rodas pode cumprir funções semelhantes sem enfrentar essa mesma complexidade.
“Hoje a ABB decidiu que, em vez de focar e desenvolver humanoides, está focando nos AVRs, que são os robôs autônomos versáteis. No final do dia, em vez de usar pernas como os humanos, eles usam rodas para fazer o deslocamento. A gente acredita que isso é muito mais fácil de implementar e já está pronto. Para conseguir fazer esse equilíbrio com as pernas, a tecnologia ainda vai ter que avançar mais”, afirmou Bueno.
Para o executivo, a escolha não significa que os humanoides não terão espaço no futuro, mas reflete uma decisão sobre o estágio atual da tecnologia e sua aplicação prática. Segundo ele, os sistemas sobre rodas permitem executar tarefas semelhantes em muitas situações, utilizando tecnologias já disponíveis e reduzindo os riscos de implementação.
“O quanto isso a gente consegue implementar na indústria que já existe também é uma questão. Precisamos adaptar embalagens e periféricos nas células para utilizar esses equipamentos. De uma forma ou de outra, tanto humanoides quanto AVRs necessitam de alterações nas interfaces das linhas para poder utilizar essa tecnologia”, completou.
A decisão mostra uma diferença importante entre a robótica que conquista a internet e aquela que precisa funcionar todos os dias dentro de uma fábrica.
O futuro imaginado pela ficção muitas vezes tem rosto, pernas e aparência humana. O que a visita à ABB Robotics mostrou é que o futuro mais próximo da indústria pode ser bem diferente. Ele pode ter rodas, vários braços, câmeras e sensores. Pode usar inteligência artificial para tomar decisões e um gêmeo digital para testar possibilidades antes mesmo de executar uma tarefa no mundo real.
E, de vez em quando, pode até parar para servir um café com um chocolatinho.




